22.6.11

Do querer porque é impossível

Consolo-me, é uma ferida que sempre vai sangrar.
Hoje eu acordei com saudade, novamente,
despertei de uma coisa que não era sonho, era mais...
Sonhei com desejos antigos, esquecidos,
revivi uns segundos daquilo que admiti, finalmente, que me falta.
(Mas não tenho coragem, não tenho.
Não tenho coragem de transgredir aquele limite,
mesmo que...)
Sonhei com você e sofri um mundo de frustrações enquanto me aprontava pra sair.

Ninguém viu nada.
(E nem verá.)






[Se tivesse escrito assim que acordei, o poema sairia bom, mas me entenderão: porque eu ando arrastando isso há muitos anos que até modifiquei os versos da Bebel (Calcanhotto é minha versão preferida) enquanto dirigia pro trabalho "a vida inteira fiz uns versos simples/pra transformar o que eu vivo". Adoro essa minha presença de espírito. E eu queria odiá-lo por... mas...]

14.6.11

29.5.11


Só lembrando, um pouquinho...
(Às vezes parece que nem me reconheço mais)

15.5.11

Da transformação



Era um fruto doce, do qual a polpa escorria saborosa pelo canto de uma boca,
mas agora é resto deteriorado pelo tempo.
Era um floco perfeito, de cristal puro e frágil,
mas agora, dissolvido, é uma mistura amorfa.
E eram pétalas felpudas e delicadas,
que agora são uma coisa morta, e só.




[E ficam as perguntas "e ver as coisas se desenvolvendo em vez de se deteriorarem? (mas tudo não é transformação?)". Eu que gosto do grotesco, que vejo beleza nas coisas mais improváveis... eu que sou apaixonada pelo bizarro... eu imagino que essas linhas só podem ser algo belo e positivo. É assim, sim. Tentar transformar um sentimento cruel em algo lindo é o meu modo de ver as coisas.
O meu modo.
E... você... não tente entender aquilo que não lhe cabe.]

17.4.11

Cantiga moderna

Ai, amigo, eu não vou fingir que não disseram que tua escolha simplesmente não combina.
Nem o quanto acham que tal escolha te faz um nada de tão insossa que é.
Nem que todos disfarçam quando observam a tua burrada acontecendo.
Ai, amigo, também não fingirei que não te vejo vagando pelas ruas a esmo...
porque eu sei que tu ainda procuras um rumo melhor pra tua vida.
Mas precisavas estar tão largado, tão desiludido e tão barbado?
Ai, amigo, quisera eu ter a coragem de ter te oferecido uma bússola há tempos!
Ficarias menos perdido, mais seguro na direção em que seguirias...
mas que jeito, quando eu mesma estava perdida?
Ai, amigo, eu sofro por não ter a coragem de encorajar-me...
Se eu pudesse, eu gostaria de esquecer o tempo perdido,
mas que jeito, quando tu pensas que estás te encontrando...?
Que jeito?

[Exercício de fluxo. Texto sem correção, sem reescrita. Datado de 27/03]

25.3.11

Copiando Mozart...

...para explicar a minha sensação de que, enfim, a sexta chegou...


Lacrimosa

Lacrimosa dies illa,
Qua resurget ex favilla.
Judicandus homo reus:
Huic ergo parce, Deus.
Pie Jesu Domine,
Dona eis requiem. Amen.


[já que estou no embalo dos clássicos]

Verão - As Quatro Estações - Vivaldi



Foge, veado!

Estava a avistar da casa de madeira um vulto galopante. De imediato vestiu o capuz e saiu. Correu o mais que pôde com a intenção de encontrar o vulto.
O vulto, agora mais que um vulto, parou e esticou a cabeça, atento aos movimentos da pessoa encapuzada.
Ao chocarem-se os olhares, a moça despiu o capuz e aproximou-se cautelosamente do vulto, que, estando atento, fugiu de pronto pelo campo de trigo.
(Da casa distinguia-se apenas os dois vultos ruivos correndo pelo campo dourado, ambos nus. Corriam livremente, sem amálgamas alguma.)
Vaguearam pelo campo, até que o vulto entrou no pinheiral, galopando velozmente e com muita facilidade. Quando a moça chegou no campo de folhas secas, já não encontrava mais o animal e, aflita, vagueava pelas árvores procurando o vulto.
O encontrou na clareira, com as patas dianteiras sobre uma rocha, olhando o céu. Cuidadosamente, a moça se aproximou do animal.
À medida em que a ruiva se aproximava, cresceram pêlos rasteiros e vermelhos por todo o seu corpo e suas feições contorceram-se, animalescas, e sua coluna dobrou-se, obrigando-na a andar sobre os quatro membros. Prostrou-se ao lado do outro animal e também olhou para o céu.
Lentamente, o animal perdeu os pêlos e ficou de pé, ganhou feições humanas e sorriu.
O novo veado correu, então, para o campo dourado. Livre.


[E este é o exercício da faculdade. Texto datado de 16/08/2005. Alguma semelhança com um texto escrito quase seis anos depois? Acho que não só os elementos, mas o próprio tema é quase que repetido... estou crescendo de verdade ou estou me banhando em caldo morno diante da vida? - E o certo era terminar com "Mais livre".]

24.3.11

Exercício

Quando eu estava na faculdade, um professor me fez passar por uma experiência incrível. Ele colocou uma peça de Vivaldi (mas não vou dizer qual era, porque vou fazer um post sobre isso) e nos fez narrar o que estávamos pensando com aquela música. Não é preciso dizer que eu praticamente delirei e não parei de escrever até a música acabar. Quando a música acabou, nem eu sabia ao certo onde eu havia ido parar com o meu texto. Li e nem foi preciso fazer correções, o texto estava ali, prontinho.
Daí aconteceu algo muito parecido ontem; estava ouvindo uns discos de música clássica aqui em casa para selecionar algumas peças para passar para as crianças... acontece que eu acabei me rendendo a um dos discos em especial. Ouvi com atenção às primeiras peças, até chegar nesta(apreciem):


Mas, enquanto eu estava passando todas as outras com cerca de 1 minuto de escuta, esta eu não pude passar. Voltei a peça desde o início (no disco nomeada como "String Serenade e major op.22") e ouvi à peça inteira. Este trecho foi um presente maravilhoso, um daqueles que a princípio a gente não quer dividir, mas então a gente entende e quer espalhar para todo mundo mas não sabe como fazer para passar toda a sensação junto...
O que senti foi uma grande vontade de chorar, em todas as vezes em que eu escutei. Mas não sei bem por quê choro... Junto com o choro veio uma necessidade imensa de escrever. E então me lembrei daquele exercício e pensei "por que não?"; mas tive muito medo do que ia sair. Não sei medo de quê...
Então, sem pensar muito, coloquei o trecho (pela 6ª vez hoje) e comecei a digitar enquanto ouvia... não sabia o que estava digitando até terminar.
O que segue é a minha ilustração para essa música incrível. Uma pintura pessoal, diria que até íntima. Não realizei correções e nem reescrevi nada, apenas tirei os erros de digitação e arrumei as letras maiúsculas.

[SEM TÍTULO]

Ela dançava por entre as folhas secas, perdida no abismo do tempo, envelhecendo e envelhecendo... Buscava a fonte da vida, dentre as árvores ressequidas e quase-mortas até sentir um naco de esperanças ao ver brotar uma pequena flor. Sorriu, pairou com a dança ali, observando a flor crescer... A flor crescia e crescia até dobrar-se no próprio talo, de tanta vida, e murchar. Ela continuou a observar, esperançosa d’acontecer um milagre ali... Sonhou, delirou, foi pr’um outro mundo onde tudo era florido, dançou por entre a relva verde e viçosa, imaginando tudo aquilo, toda aquela beleza, subindo pelo seu corpo carcomido... Foi assim que ficou jovem e depois se deitou no solo macio, sentindo a vida lhe passar pelas veias, pelos ossos, por todos os seus órgãos... E a canção da dança era tão bela e tão forte que a fez se levantar e seguir, mais uma vez, dançando e dançando e dançando e dançando e dançando... Em que mundo estaria? Em que mundo gostaria de estar? Ela nem se importava mais, só queria estar. Estar saboreando a vida...

29.1.11

E o que é a vida?
A vida é um fato.
Breve.
Polêmica.
Alardeadora.

A vida...?
A vida é um curta.
Passa.
Escorrega.
A vida vai e termina.
(e é preciso ser rápido para captá-la)

A vida é um caso.
Daquele tipo... que não se sai ileso.
Daquele tipo... que você deve se entregar.
Daquele tipo... que marca pra nunca mais esquecer.

Então...
Por que eu paro e admiro o tempo que corre?
Por que tenho a sensação de que a minha vida tem sido longa demais?
E por que é que o medo de me marcar me deixa sem ter do que me lembrar?

O que é a minha vida, a minha vida quase sem lembranças?
A minha vida é uma peça incoerente em exposição permanente.

24.1.11

Bomba

Estava pensando no quanto uma pessoa consegue segurar uma bomba. Assim, sem saber de origens, sem saber de destinos, sem saber de suas características, sem saber de nada, nada.
Estava pensando na capacidade de esperar pelo inesperável. Assim, com todas as letras, inesperável. Pelo imprevisível inesperável.
Pelo inesperável apreensível...
É que eu tenho uma bomba antiga e caminho com ela o tempo todo. Às vezes penso que nunca mais terei que carregá-la, mas, quando percebo, lá está ela... amarrada a mim por uma corrente indestrutível. A bomba que destroi.
Talvez a bomba destrua a corrente quando finalmente explodir. A corrente indestrutível.
Estava pensando... se essa sensação é algo memorável. Se alguém pode ficar feliz e orgulhoso de sentir esse peso, essa responsabilidade. Segurar levianamente uma bomba destruidora atada por uma corrente indestrutível, esperando pelo imprevisível inesperável. Apreensível.
A marca da corrente deixa um rastro para compreender o mínimo. O mínimo dessa bomba quase que amalgamada a minha alma.
E o que fazer além de carregar e esperar? O que é possível fazer com esta prisão que me persegue onde quer que eu vá?
O que fazer com essa porção de sentimentos presos e que não deixam de crescer e tomar os pequenos espaços que ainda restam dentro da bomba? E quando eles não couberem mais?
Eles serão extinguidos? Eles crescerão infinitamente numa proporção astronômica e incalculável? Estes sentimentos presos vão fugir quando repararem o horror que os circundará? Vão procurar quaisquer coisas alcançáveis para serem plenos, enfim?
E as tantas outras possibilidades intraduzíveis?
O que fazer com esse objeto? O que esperar, enfim? O que calcular? E a coragem para explodi-lo e sair desta angústia que é a espera? Espera pelo inesperável.








[escrito num fluxo de pensamentos, em poucos minutos, sem correção. Uma tentativa falha de traduzir um sentimento, talvez uma mescla de angústia com frustração e um tanto de medo. Um sentimento que me ronda e do qual não consigo me desapegar, talvez seja por isso que ele insista em voltar com o mínimo de incentivo - como um convite, ou uma fala animadora sobre algo que nunca irá se concretizar.]

3.1.11

20/06/2006

Na verdade, estava relendo mesmo o meu diário e descobrindo todo o histórico deste que escrevo agora. Eu ia retirar uns trechos sobre a cebola, de como tudo começou... mas são tantas coisas que... nem sei por onde começar.
Ia ser interessante fazer este paralelo... para eu lembrar.
Daí achei esse textinho tão singelo, que resolvi colocar aqui, assim, sem editar também:

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Nada não


Bem… nada como um dia após o outro… um momento após o outro… um segundo após o outro…

Agora estou prestando atenção no ar que sai e no ar que entra… o ar que entra, entra com muito mais força que o ar que sai, como se fosse preciso muito esforço para que ele subisse e entrasse no meu corpo. Ou como se eu estrivesse determinada em puxá-lo. O que sai, por sua vez, parece inibido ou receoso de juntar-se com o de fora.

É engraçado como é paradoxal com o que estou sentindo agora. Muito mais soltando que absorvendo.

Mas talvez seja da minha natureza… ou talvez seja costume.

Engraçado, engraçado.

Acho que vou aproveitar, reler aquele diário e republicar algumas coisas... ou reescrevê-las, bateu uma dorzinha... que não consigo descrever agora.

Do diário

Eu estava querendo uma coisa antiga que havia escrito, mas não lembrava onde estava... por fim, fui mexer no diário (aquele, o espaço em que só eu posso mexer, mas que nem mesmo lá eu conto tudo pra mim mesma) e encontrei o que queria.
Por alguma razão, talvez uma resposta para uma prima muito querida (que queria saber o que era crescer) vou colar aqui o meu primeiro estranhamento (que só ela entenderá, já que o motivo é o mesmo).
Para os outros, se é que há outros além de mim, talvez não caia muito bem, já que não é propriamente algo trabalhado para ser exposto aqui.
(de 2005 e 2006 - sem edição neste diário/caderno de estudo que é público)

(atualiz.:e olha a metáfora do oceano ali... nem havia visto! eheheh//fui mexer nesse diário porque precisava migrar pro wordpress, parece... será que ficou público? #medo)

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Máquina do Tempo – O estranho olhar que meu avô tem ao tocar uma moda de viola em seu bom e velho violão

Estava sentada sobre a bacia de louça, com um caderno nos joelhos e uma caneta que rodava entre as minhas mãos. Todo o resto dormia, exceto a rua lá fora, onde os carros passavam distribuindo sons e luzes. A porta sanfonada do recinto estava aberta e um corpo com barulhos de sono se fazia presente no cômodo ao lado. A luz era tão amarelada, que fazia com que o toillet onde me encontrava viajasse no tempo.

Para o passado! Não há nada que a gente sinta mais falta que das coisas que já se passaram. Para o passado! Que é tão bem representado com fotos dessa coloração já citada.

Difícil é explicar o que eu sentia… senti como se o cubículo azulejado onde eu estava de repente parasse de contar o tempo. Senti-me como se estivesse presa num álbum de retratos. E, por um longo momento, senti-me inexistente. Nem os roncos dos carros da rua, nem os do corpo do cômodo ao lado ilustravam-se mais. Então vieram os apertos no peito e a tristeza profunda, uma nostalgia que veio sem ser chamada.

Contemplei a menina de vestido rodado que passava dançando, enquanto os ouvidos da minha memória escutavam o som de uma música caipira que estava sendo tocada no violão de um senhor de cabelos, barba e bigode negros. Outra menina acabava de chegar e, dando as mãos com a dançarina, esboçava passos nunca imaginados por profissionais famosos dessa arte.

Eles pareciam tão felizes!

Mas logo veio o tempo que empesteou de fios brancos os cabelos do avô, que agora tocava solitariamente seu violão – talvez preso em seu álbum de retratos – e as meninas, que não trajavam mais vestidos rodados, estavam agora deitadas numa cama, discutindo calorosamente a respeito de suas próprias vidas de adolescentes.

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É antigo… mas que saudade eu tenho de você, vozinho lindo… hoje é dia do seu aniversário e amanhã eu o verei e lhe abraçarei bem forte para matar um pouco dessa saudade.

Hoje estou adulta, mesmo que recém saída da adolescência, e vivo todo o tempo que é possível ao seu lado e ao lado da minha avó, porque sei que um dia não estarão mais presentes de corpo aqui… e eu sei que eu vou sentir muita falta, mas muita falta mesmo de vocês dois… e essa saudade antecipada já me traz algumas dores, embora me torne mais forte pra aguentar o que provavelmente vem por aí.

O problema é que a gente nunca pode prever o que acontece. E assim foi o que aconteceu esses dias; amanhã vou contar tudo para a minha avó e procurar saber o que ela acha… será que de fato estou comovida com alguma coisa que não pretendia estar?

E isso está doendo mais que tudo, porque é um nó que não ata e nem desata… é uma situação que eu não posso resolver, porque não depende apenas do meu aval… rs… e isso me traz uma angústia sem tamanho.

E me pergunto outra vez… "é isto que é crescer?"; "é isto que é sentir?".

Estou me sentindo uma idiota. Idiota, idiota, idiota, rs…

Mas tenho uma novidade… não estou nem aí se estou realmente sendo idiota. Nem se estou sendo qualquer outra coisa e passando qualquer outra imagem… olhando a listagem que fiz com os adjetivos que me empregam, percebi que é por demais extensa e por vezes muito contraditória. a maior contradição é que todo mundo acha que sou mais exata que inexata… logo, todos devem estar errados. Mesmo que estejam certos.

E daí?

Estou pintando novamente a minha face, desta vez sem remorso algum. Estou saindo da minha própria tempestade e afundando meu navio num oceano que eu nem pretendia visitar.

Deuses traiçoeiros.

Só EU tenho essa camiseta :P

30.12.10

Recordar é viver! - Morrendo mais um pouco a cada segundo



[Imagem do Segundo Inicial]

Não devia.
Procurar por mais um pouco de dor
daquela que estava silenciada, amordaçada,
não devia.
(Dor silenciada ainda existe, mas calada
é mais leve de acompanhar...
como some...)
...
É que me lancei numa esperança desesperada quando revi o meu presente
ressurgir no meu presente...
Daí vieram os mesmos sagrados segundos que, com os palpites,
reviveram aquele desejo.
Reanimaram minha alma até aquela lembrança, a mais maldita e cruel, alcançar o ensejo...
ela esmigalhou pela terceira vez o pensamento que mal havia se formado em minha nova mente...
E daí,
remoendo as dores, reconto os segundos até me consumir por completo:
Remorro.


[ficou péssimo, mas é isso que dá mesclar sentimento com estudo exatamente no momento em que se está asfixiado, procurando um sentido, sofrendo. Racionalizar o impossível e tentar traduzí-lo em poesia bem no momento... só para sangue-frios ou verdadeiros mestres, coisas que eu não sou. E, pra ajudar, o som passou a tocar "Mensagem", aquele disco infernal que me faz sofrer ainda mais.]