Sonho acordada e sonhos recorrentes. Não tenho a intenção de definir um limite entre a ficção e a materialidade, porque não há um limite definido entre o que está na minha mente e o que está materializado fora dela.
Não é possível dizer se o que se passa é real ou possível; é uma mistura de desejos, de sensações, de definições, de quebra e anseio por libertação de mim para um mim muito mais amplo e ultrarreal... uma certeza de que é possível transcender a materialidade através da própria materialidade bem como a imaterialidade pela própria imaterialidade, porque uma não é o caminho de transcendência da outra (elas são a mesma coisa).
Eu tenho a sensação de estar amalgamada a um fio tênue, que chega a desaparecer de tão delicado, mas que não deixa de existir. E o que eu mais queria era saber sair deste círculo ao qual estou fadada nesta vida.
E daí meus sonhos fazem sentido, pois estão vagando num lugar muito além e me ajudam a observar de longe o meu círculo. Algumas coisas parecem não fazer sentido de tão além que se encontram, então me questionava se realmente precisaria haver um limite que determinaria o que era verdadeiro, que poderia materializar-se, existir e, portanto, tornar-se possível... daquilo que era imaterial, que tinha cara de ficção, de irrealidade, impossibilidade... até julguei logro da minha consciência que sabe muito bem ser cruel; aconteceu, por fim, que colocar um limite faria com que eu definisse muito bem o fio que me prende (ou sobre o qual eu caminho, como eu dizia quando era mais nova).
Esquecer o limite, por outro lado, faz com que desapareça o fio... e aí, se eu realmente ignorar esse julgamento, talvez eu possa pensar que o fio deixou mesmo de existir - quem sabe?
Entretanto, hoje eu tive uma prova muito grande de que limite é bobagem quando resolvi dar chances a minha intuição. Minha consciência dizia que estava pregando uma peça em mim mesma, que minha intuição não poderia me ajudar a resolver questionamentos sérios. Daí me peguei a sentir muitas coisas ao mesmo tempo enquanto sonhava mais uma vez.
Sonhei com a antiga cabeça de veado e os sons dos tambores ao meu redor, com a liberdade de poder deduzir o que é que significam, o que é que me dizem e com o que é que poderei relacioná-los... sonhei em perder o medo de experimentar mais, em todas os momentos da minha vida... sonhei com a quebra do fio e eu liberta, lá no futuro, protegida pela segurança que descobria agora...
E o que mais me tocou foi o encaixe perfeito de tudo o que surgiu no sonho. Uma iluminação para a minha jornada, um caminho a seguir, um sentido para o que não compreendo... tudo, tudo foi chegando e me fazendo esquecer um pouco mais tudo o que não é.
E aquele verso do meu diário, uma anotação depois de um poema sobre limites, faz mais sentido agora do que quando eu era mais nova: "acho que o limite é ser humano". O que eu já compreendia da tradução, que eu dizia ser óbvio, agora parece me afetar mais; era óbvio, mas eu não dava conta.
O limite é estar e ser. O limite é humano. O limite é o que é. Nada além.
Não queria me repetir, mas é justo transcrever aqui, depois, minhas previsões sobre mim mesma, aquilo que eu escrevia e não notava.
Aliás, antes disso, vou caçar umas coisas interessantes aqui no caderno da pós. De repente lembrei que deixei uma pista interessante para me desvendar.
Porque eu cansei de me devorar aos poucos.