25.3.11

Copiando Mozart...

...para explicar a minha sensação de que, enfim, a sexta chegou...


Lacrimosa

Lacrimosa dies illa,
Qua resurget ex favilla.
Judicandus homo reus:
Huic ergo parce, Deus.
Pie Jesu Domine,
Dona eis requiem. Amen.


[já que estou no embalo dos clássicos]

Verão - As Quatro Estações - Vivaldi



Foge, veado!

Estava a avistar da casa de madeira um vulto galopante. De imediato vestiu o capuz e saiu. Correu o mais que pôde com a intenção de encontrar o vulto.
O vulto, agora mais que um vulto, parou e esticou a cabeça, atento aos movimentos da pessoa encapuzada.
Ao chocarem-se os olhares, a moça despiu o capuz e aproximou-se cautelosamente do vulto, que, estando atento, fugiu de pronto pelo campo de trigo.
(Da casa distinguia-se apenas os dois vultos ruivos correndo pelo campo dourado, ambos nus. Corriam livremente, sem amálgamas alguma.)
Vaguearam pelo campo, até que o vulto entrou no pinheiral, galopando velozmente e com muita facilidade. Quando a moça chegou no campo de folhas secas, já não encontrava mais o animal e, aflita, vagueava pelas árvores procurando o vulto.
O encontrou na clareira, com as patas dianteiras sobre uma rocha, olhando o céu. Cuidadosamente, a moça se aproximou do animal.
À medida em que a ruiva se aproximava, cresceram pêlos rasteiros e vermelhos por todo o seu corpo e suas feições contorceram-se, animalescas, e sua coluna dobrou-se, obrigando-na a andar sobre os quatro membros. Prostrou-se ao lado do outro animal e também olhou para o céu.
Lentamente, o animal perdeu os pêlos e ficou de pé, ganhou feições humanas e sorriu.
O novo veado correu, então, para o campo dourado. Livre.


[E este é o exercício da faculdade. Texto datado de 16/08/2005. Alguma semelhança com um texto escrito quase seis anos depois? Acho que não só os elementos, mas o próprio tema é quase que repetido... estou crescendo de verdade ou estou me banhando em caldo morno diante da vida? - E o certo era terminar com "Mais livre".]

24.3.11

Exercício

Quando eu estava na faculdade, um professor me fez passar por uma experiência incrível. Ele colocou uma peça de Vivaldi (mas não vou dizer qual era, porque vou fazer um post sobre isso) e nos fez narrar o que estávamos pensando com aquela música. Não é preciso dizer que eu praticamente delirei e não parei de escrever até a música acabar. Quando a música acabou, nem eu sabia ao certo onde eu havia ido parar com o meu texto. Li e nem foi preciso fazer correções, o texto estava ali, prontinho.
Daí aconteceu algo muito parecido ontem; estava ouvindo uns discos de música clássica aqui em casa para selecionar algumas peças para passar para as crianças... acontece que eu acabei me rendendo a um dos discos em especial. Ouvi com atenção às primeiras peças, até chegar nesta(apreciem):


Mas, enquanto eu estava passando todas as outras com cerca de 1 minuto de escuta, esta eu não pude passar. Voltei a peça desde o início (no disco nomeada como "String Serenade e major op.22") e ouvi à peça inteira. Este trecho foi um presente maravilhoso, um daqueles que a princípio a gente não quer dividir, mas então a gente entende e quer espalhar para todo mundo mas não sabe como fazer para passar toda a sensação junto...
O que senti foi uma grande vontade de chorar, em todas as vezes em que eu escutei. Mas não sei bem por quê choro... Junto com o choro veio uma necessidade imensa de escrever. E então me lembrei daquele exercício e pensei "por que não?"; mas tive muito medo do que ia sair. Não sei medo de quê...
Então, sem pensar muito, coloquei o trecho (pela 6ª vez hoje) e comecei a digitar enquanto ouvia... não sabia o que estava digitando até terminar.
O que segue é a minha ilustração para essa música incrível. Uma pintura pessoal, diria que até íntima. Não realizei correções e nem reescrevi nada, apenas tirei os erros de digitação e arrumei as letras maiúsculas.

[SEM TÍTULO]

Ela dançava por entre as folhas secas, perdida no abismo do tempo, envelhecendo e envelhecendo... Buscava a fonte da vida, dentre as árvores ressequidas e quase-mortas até sentir um naco de esperanças ao ver brotar uma pequena flor. Sorriu, pairou com a dança ali, observando a flor crescer... A flor crescia e crescia até dobrar-se no próprio talo, de tanta vida, e murchar. Ela continuou a observar, esperançosa d’acontecer um milagre ali... Sonhou, delirou, foi pr’um outro mundo onde tudo era florido, dançou por entre a relva verde e viçosa, imaginando tudo aquilo, toda aquela beleza, subindo pelo seu corpo carcomido... Foi assim que ficou jovem e depois se deitou no solo macio, sentindo a vida lhe passar pelas veias, pelos ossos, por todos os seus órgãos... E a canção da dança era tão bela e tão forte que a fez se levantar e seguir, mais uma vez, dançando e dançando e dançando e dançando e dançando... Em que mundo estaria? Em que mundo gostaria de estar? Ela nem se importava mais, só queria estar. Estar saboreando a vida...