Foge, veado!
Estava a avistar da casa de madeira um vulto galopante. De imediato vestiu o capuz e saiu. Correu o mais que pôde com a intenção de encontrar o vulto.
O vulto, agora mais que um vulto, parou e esticou a cabeça, atento aos movimentos da pessoa encapuzada.
Ao chocarem-se os olhares, a moça despiu o capuz e aproximou-se cautelosamente do vulto, que, estando atento, fugiu de pronto pelo campo de trigo.
(Da casa distinguia-se apenas os dois vultos ruivos correndo pelo campo dourado, ambos nus. Corriam livremente, sem amálgamas alguma.)
Vaguearam pelo campo, até que o vulto entrou no pinheiral, galopando velozmente e com muita facilidade. Quando a moça chegou no campo de folhas secas, já não encontrava mais o animal e, aflita, vagueava pelas árvores procurando o vulto.
O encontrou na clareira, com as patas dianteiras sobre uma rocha, olhando o céu. Cuidadosamente, a moça se aproximou do animal.
À medida em que a ruiva se aproximava, cresceram pêlos rasteiros e vermelhos por todo o seu corpo e suas feições contorceram-se, animalescas, e sua coluna dobrou-se, obrigando-na a andar sobre os quatro membros. Prostrou-se ao lado do outro animal e também olhou para o céu.
Lentamente, o animal perdeu os pêlos e ficou de pé, ganhou feições humanas e sorriu.
O novo veado correu, então, para o campo dourado. Livre.

[E este é o exercício da faculdade. Texto datado de 16/08/2005. Alguma semelhança com um texto escrito quase seis anos depois? Acho que não só os elementos, mas o próprio tema é quase que repetido... estou crescendo de verdade ou estou me banhando em caldo morno diante da vida? - E o certo era terminar com "Mais livre".]