A Cebola



Do meu diário Andante e das coisas escritas ao acaso.

"De fato, sobre aquele assunto do qual não devo falar… eu realmente sou incapaz de redigir ou dialogar sobre ele. Hoje a Rê me perguntou sobre não estar boa ‘Você fala de mim, mas você também não está nenhuma brastemp, né?’, ela disse. Não. Eu não saí daquela sensação de paz absoluta a respeito do que é viver, é estranho e, eu diria, não é um paradoxo compreensível, afinal, se eu estou em paz, como é que poderia ter havido um desequilíbrio como aquele? Eu diria mais que foi um momento de fazer um levantamento de caixa e exterminar as dívidas ou receber o que tiver de ser recebido.
Foi uma sensação muito real, além do que a carne e o pensamento podem alcançar; é o que eu consigo dizer. E também posso dizer que aprendi a lidar um pouco melhor comigo. Antes eu era muito violenta e me mutilava, podando todas as minhas coisas boas, como: méritos, estimas, ideias.
‘Você está sentindo vazio, né?’, sim.
Mas não posso explicar. Eu não consigo."
(…5 minutos depois…)
"Somos como uma cebola. Tá. Mas depois que tiramos todas as nossas camadas, nós também deixamos de existir… como a cebola. Esse é o sentido? Se eu tiver uma existência sem, de fato, eu existir… seria esse o meu nada? Seria esse o meu vazio? Esse, o lugar para onde vou e o ser que pretendo… não ser?
Porque ser é banhado de vaidade.
Será preciso dosar a vaidade? Será que é impossível se desfazer dela? Será que a vaidade é essencial?
Eu disse uma vez que ‘ser leva uma vida’. Disse daquele jeito que a gente diz intuitivamente, sem filosofar muito.
Será que é aprender a ser, sem vaidade, que é transcender? Passar da não-existência a uma consciência e uma existência ainda maior? É essa a minha busca?
Não existir para, enfim, existir?
É essa a borda que eu avisto e não consigo chegar? Dói daquele jeito que doeu? Porque eu não sinto mais tanta dor… só a da vaidade.
‘Só’ é uma daquelas expressões que aliviam o terror da coisa. Vaidade é ‘só’ uma coisa imensa. O que não deveria, considerando que as camadas tendem a diminuir quando chegam ao nada da cebola… (ou seria mais um paradoxo, daqueles – a camada maior é a menor – só é falsamente a que envolve, não a maior em complexidade – já que é mais fácil de se tirar também… OLHA! a camada da vaidade da cebola, a que envolve o nada, a parte mais complexa e maior dela, é mais difícil de se abrir e tirar… né?).
Posso pensar em mais duas coisas ainda:
-É difícil de se tirar, porque não há como se tirar uma coisa dela mesma – ou seja – somos essa coisa horrorosa que é a vaidade, por isso acabamos virando o ‘nada’;
-É complexa e mais difícil de se tirar, mas o ‘nada’ ao qual chegamos é ainda maior  mais complexo… então não é um nada? Então não deixamos de existir?
E por que falo de cebola? Eu nem gosto de cebola!
Mas ainda tenho mais uma comparação para a metáfora ‘ser é uma cebola’:
-Estar com as pessoas é como comer cebolas. Ficamos com o gosto delas por um tempo indeterminado. =D
Isso é o mais próximo que consigo chegar daquilo que me doeu. E o máximo que consigo traduzir. E a Rê pode ler isso e entender um pouquinho mais daquilo que não consegui dizer a ela. Talvez possamos ‘catarsear’ uma a outra e aliviar ambas as frustrações."
(…mais 5 minutos…)
"Minha vida às vezes é uma piada. E o que penso e sou também.
Parei aqui.
Eu diria que a sensação de passar a vida à toa é descobrir que acho que me esforcei pra uma coisa vã. Ou só estou perdida (por cuidar pra não me perder e acabar me perdendo por isto). Ou só precisava realmente de uma recarga… Porque eu ainda não consigo dizer o que eu realmente sinto (além de mediocridade)
Cebolas! Bah!"
(… desenho gigante de uma cebola, escrito embaixo: ISTO NÃO É UMA CEBOLA. E, entre parênteses e em letras miúdas: é gente.)
"(Plágio do ‘Isto não é um cachimbo’… Será?)
Estou começando a ter fixação por cebolas. =D"