31.8.10

É que não tem adiantado pensar,

É que não tem adiantado pensar,
então fez-se o silêncio.

E o oco não passou d'um eco,
uma tentativa falha de transcender.

Dá pra ultrapassar a linguagem,
alinguagem?


a eles,


[Terminei a leitura dos poemas de Vaganau, sentindo-me bastante culpada por fazer uma leitura pela metade; o que talvez justifique a minha visão da obra, neste momento.
Consegui separar uns trechos muito bons, e alguns poemas interessantes, mas não sei ainda se gostei realmente do conjunto da obra. Foi mais por ser um apanhado de declarações de amor - e nada contra o "tipo" de amor (arre, que pra mim o que importa é o amor e a poesia, não existem tipos!)-, embora eu tenha achado o meio de expressão, a princípio, fantástico.
"Livro das desoras" é algo que vou pegar novamente pra ler, em breve, são poemas densos, que merecem uma leitura mais atenciosa (talvez porque a mistura de sensações e o tema que é diferenciado tenham me chamado mais a atenção).]


29.8.10

Contradição

Sou aquele ponto cheio

De onde saem os caminhos para todos os lugares

E para onde chegam, de todos os lugares, os caminhos.

A contradição não me obriga a abrigá-la;

Sou uma casa cheia de escolhas,

Mas vazia de espaço.

Aqui também não cabe aquele punhado de descrença,

Nem aquela gama de julgamentos precipitados,

Nem as gotas alheias de tentativas de compreensão.

Não há o que compreender,

Eu sou,

E só.

Não pensar em não pensar

Reduzida a um gemido
entoado num murmúrio,
não quis mais entender
donde vêm os enlaces.

Melhor é não pensar.

Esmorecer

Estribou em um terreno firme
e dali nunca mais saiu.
Que adiantou,
hein
?

22.8.10

A coisa complexa

Daí as trevas esmaeceram e o punhado de pó espalhou-se por todo o espaço. Não era esperado que isso acontecesse tão cedo, nem que fosse possível ou fosse tão breve e tão fácil destruir uma coisa gigantesca e coesa.

Mas as trevas continuaram a ser trevas, espalhadas por todos os cantos, sobre todas as coisas, numa infinidade absoluta que não se importava com a destruição. Afinal, continuavam sendo. Acontecendo.

Foi neste instante do sonho que a coisa despertou. Suando com o ardor de uma derrota imaginária, sofrendo das possibilidades determinadas por variáveis várias, tão incertas que eram.

A coisa então se levantou, olhou para seu reflexo e viu que continuava ali, inteiro. Sorriu. Se é que coisas sorriem. E a felicidade era tamanha que não havia como segurar mais, escapava por todas as bordas! Então, a coisa, além de sorrir, dançou, pulou e cantou.

Os vizinhos bem que acharam aquilo muito estranho, uma algazarra repentina misturada com felicidade expressada em tantos modos! Mas que modo!

Então a coisa saiu da toca e saudou a outra coisa, rugindo em bom tom:

- Não é maravilhoso estar vivo e inteiro, sem faltar pedaço algum?

E o narrador resolve parar esta história por aqui. Basta de tanta complexidade para só uma criatura de um conto só. Ele vai deixar a criatividade se espalhar por todos os outros contos também. O bom mesmo é dividir.


[não resolvi ainda o estribar, mas achei isto tão singelo, que resolvi colocar aqui.]

17.8.10

The Wheel


Sem mais.

The Wheel


The Wheel
Tuatha de Danann

Coming with the whistle of the wind there´s a leaf dancing in the air
Floating, rounding, shining, laughing it comes changing colours and tearing in front of me

Suddenly it turns into a wild being
That sits on the ground - So quietly
Looking at me... it rises... So the creature starts to tell me this:

“Sometimes when you think everything’s gone
No lights, reason, love or hope
Everything lost its sense
you feel down, want to leave it all...

Life is an old wheel
You must learn it soon
Wheel of transformations...
Everything goes and has their own purpose...”

Sometimes in, but sometimes out - never stand and still...
New horizons, that´s the mysterious wheel
Cycles, roundings, time, birth, death chances to try again
That´s a secret - Everything is turning

Welcome to this play my friend - most call it life
You have many ways to pick - but try choose the right.
What´s right?

Sometimes in, but sometimes out - never stand and still...
New horizons, that´s the mysterious wheel
Cycles, roundings, time, birth, death chances to try again
That´s a secret - Everything is turning

Night - is the sleep of the sun
Death of our light king
next day he rises again - The wheel completes its whole process
“What is alive must die - what dies must be harvested
What is Harvested must be seeded - The seeded must Rebirth”
Secrets of the Wheel...

Sometimes in, but sometimes out - never stand and still...
New horizons, that´s the mysterious wheel
Cycles, roundings, time, birth, death chances to try again
That´s a secret - Everything is turning




[Tuatha de Danann é uma banda brasileira; a conheci em 2005, no festival Live'n'Louder -em que fui ver SCORPIONS pela primeira vez, ehehehe-, quando entrei as pessoas estavam dançando como se fosse festa junina - comparado às danças folclóricas daqui, rs, foi o máximo que conseguiram, né? - o sol estava lindo e brilhante e o clima perfeito. Mas o que mais me fascinou foi quando, em 2006, reparei nesta música. Até onde sei, está no último álbum da banda: Trova di Danú. O motivo não convém.][aliás, segunda metáfora pra ela hoje]

Há tempos...

Devaneio dentro do 21, voltando pra casa.

Aliás, aproveitei pra anotar isso:



Estribar

Meter a vida em arreios
não é garantia de cavalgadura mansa.





[linhas anotadas no bloco de notas do celular, originalmente: "meter arreios na vida/não garante cavalgadura mansa/estribar"; já que, se desvio de um pensamento, perco em poucos segundos para outros pensamentos aleatórios palavras exatas que jamais retornam. Na hora pareceu bom, mas agora bateu o clichê. E a ideia que tive de primeira não tinha nada a ver com isto, mas com outra coisa que estava tentando esquecer... e acho que esqueci mesmo. rs]

15.8.10

Estribar

Com o jogo resolvido, fiquei curiosa pela próxima palavra, e qual não foi a minha surpresa?


es.tri.bar v.t.d., int. e pron. 1 firmar(-se) nos estribos ñ t.d.i. e pron. 2 (prep. em) ter como fundamento; basear(-se)


Esta palavra combina com o meu sentimento de hoje, exatamente.

Jogo do dicionário finalmente resolvido:

Juglandácea

Noz
no biscoito
de leite:
um sonho.



[o máximo da minha sublimação e o máximo que a metáfora me permite alcançar agora; poemeto achado repentinamente: um achado! E não se esqueçam: as palavras são minhas amigas. Próxima palavra!]

Teorizações que sucederam a uma ilustração de um conceito qualquer

Antes de mais retratações a respeito do jogo do dicionário, eu gostaria de fazer uns comentários sobre uma coisa que me incomoda (mesmo que ninguém vá ler).
O caso que me perturbou e que não convém ser esclarecido ainda não saiu da minha cabeça; eu não pude fazer estes questionamentos durante o problema, porque eles não cabiam para o momento, mas eu não posso segurá-los mais: quem as pessoas pensam que são quando dizem quem são? Quem elas estão enganando? Quem é capaz, REALMENTE, de considerar que existe certo e errado? Será que elas não percebem que o que existe é o que convém? Quem elas acham que estão se tornando sendo que para elas a mudança não faz parte do que são? Como podem ignorar a conveniência quando admitem a existência de múltiplos conceitos "auto-excludentes" (para elas) dentro de suas considerações? Como podem querer discutir METAFÍSICA se ignoram o que está além da superfície? Como podem ser tão mais medíocres, teorizando algo que está além do alcance da compreensão e estabelecendo critérios de conveniência para um pseudogrupo que deverá se expandir para a humanidade? COMO? COMO? COMO?

12.8.10

Um pouco de...


...às vezes cai bem.

1ª Tentativa de retratação

E
era
uma vez
uma bruxa
com casca em vez de coração.
No oco da casca,
a princípio,
só o oco.
(Sufoco
era o vazio
que preenchia)

Daí veio um fruto seboso,
intrometido,
um tumor crescendo bem ali naquela casca.
E cresceu tanto que brotou.
E o broto vingou que saiu pela boca.
Cresceu.
Cresceu.
Cresceu ainda mais que era mais árvore que bruxa.
E da árvore caiam outras cascas
que, com a queda, partiam-se
e alimentavam a todos.

Fim.


[Escrito sem pensar; um texto vergonhoso que durou cerca de 8 minutos, mas que, sei lá por qual motivo, achei que valia o registro.]

11.8.10

Juglandácea [a ideia do jogo do dicionário]

Cultivei, num pequeno buraco, uma semente. Tão dura, tão seca, tão áspera, tão feia era, que expectativas não brotavam. Ao mesmo tempo, cultivei, no abismo do tempo, uma expectativa. Tão grande, tão vistosa, tão forte, tão... que a espera era dolorosa. O final clichê da mensagem: a semente brotou, cresceu, sem alarde. A expectativa minguou rapidamente na queda. Agora o poema em construção:


Me joguei,
esperando alcançar a sublime essência celestial.
Doloroso foi chegar ao terreno seco.

Dias longos arrastaram-se sem piedade sobre a minha carcaça,
e o vento cobriu-me com um manto poeirento.
Adormeci sem sonhos.

Então, brotei
[...]

ju.glan.dá.cea s.f. BOT espécime das juglandáceas, família de árvores e arbustos aromáticos, cultivados como ornamentais, pela madeira e por seus frutos com sementes comestíveis, como a noz e a pecã ~juglandáceo adj [míni Houaiss]

-----------------------
Jogo do dicionário é para gente entediada. Abre-se o dicionário numa página qualquer e um verbete aleatório vira tema. Daí, a pessoa entediada tem uns dias pra refletir, encontrar uma figura poética e escrever alguma coisa que seja boa ou inteligente. Acontece que eu tô querendo trapacear e escolher outra palavra aleatória. Mas trapaça não é uma coisa muito bonita e nem muito construtora da personalidade consistente que tanto almejo.
Foi assim: peguei a palavra, não tive ideia do que fazer com ela; mal pensei e cheguei num clichê daqueles bem batidos; fiquei com preguiça e larguei o jogo pela metade. Entretanto, isto virou uma questão de honra. Resolvi postar essa coisa para me obrigar a pensar em outra coisa melhor.
[E, sim. É questão da monografia também.]
Pra salvar este post, vou dizer a metáfora perfeita mais linda de hoje, que merece muito mais que uns tweets.

Onde eu trabalho, eu tenho o maior prazer do mundo. E eu tenho a sorte de ouvir coisas maravilhosas das crianças. Coisas que eles dizem sem medo, sem procurar por recompensas, sem achar que dizem besteiras.
O meu maior defeito é não registrar. Eu sou bem hedonista mesmo, curto o momento, me delicio, preservo um pouco na memória e daí, fico sempre a espera do próximo momento.
Conversando com a estagiária hoje, contei dos meus projetos deste ano e disse da minha preocupação em trabalhar a linguagem. (eu acredito sinceramente que quem sabe se expressar, se comunicar com eficiência, é a pessoa mais feliz e bem vista no mundo) Mas também falei deste meu defeito em não registrar as coisas que acontecem.
Cheguei em casa com a conversa na cabeça e conclui que eu vou trabalhar isto (rsrs...).

Hoje eu tive o prazer de ouvir de uma das crianças da minha turma a coisa mais linda.
Pra explicar mais ou menos de onde veio, a base histórica da coisa, rs...: estamos estudando botânica estes dias. E eu encontrei um livro muito legal, lá na estante da biblioteca, sobre plantio; com dicas para cultivar as mais variadas sementes, bulbos e mudas.
Daí, levei o livro para eles e propus uns dias para plantarmos algumas daquelas coisas (feijão, amaryllis e mudas de árvores para recuperar o jardim que foi destruído com a reforma da escola).
Noutro dia, levei os bulbos para que eles pudessem ver que a figura do livro era de verdade mesmo e que a gente ia mesmo plantar. Este dia foi praticamente um milagre: sem ter o que fazer (reforma, chuva e muitas crianças entediadas com a semana longa) sentei com eles e ficamos durante quase 2h conversando sobre o assunto. Contei sobre o plantio e comparei o crescimento das plantas ao crescimento da gente.
Hoje, durante o almoço, a fruta servida foi mexerica. Disse, sem dar conta, para prestarem atenção aos caroços. E seguiu isso:

"T: PRÔ, PRÔ!!! EU TIVE UMA IDEIA!!!
Eu: Que ideia você teve, Thalles?
T: O caroço da mexerica é uma semente, não é?
Eu: Isso mesmo! O caroço é uma semente. Muito bem!
T: Então a gente pode plantar, não é?
Eu: Sim, a gente pode plantar. [aqui eu já estava muito feliz]
T: E que tal se a gente plantar?
Eu: Mas que ideia boa você teve! Vamos fazer assim então: separa as suas sementes aí que eu vou contar a sua ideia para os seus amigos e pedir para que eles as separem também, tá?"

Passei de mesa em mesa e contei para as crianças a ideia e elas ficaram MUITO empolgadas! Corri até à secretaria, peguei um saquinho para que eles colocassem as sementes dentro e quando voltei foi que aconteceu. O Thalles estava abrindo todos os gomos da mexerica e separando as sementes, rsrs... e daí, quando ele me viu, disse:

"PRÔ! OLHA, PRÔ, QUE LEGAL! Os bebês sementes estão saindo de dentro do ovo laranja! AI QUE LINDO!"

E eu só queria ter filmado pra guardar isso melhor na minha memória. A carinha dele estava ótima, os olhinhos brilhando e, todo melecado com o suco a mexerica, ele sorria e repetia a metáfora: Esse ovo laranja é lindo, e os bebês também!

(Então cheguei em casa e minha mente preocupada com a criação de metáforas perfeitas não conseguiu estudar a botânica de uma mera Juglandácea. Acho que vou pedir socorro ao meu querido aluno, rsrs...)

10.8.10

Mar teu (pra quem já leu a mensagem)

Quis velejar e
naufraguei,
mas me acostumei às águas,
justas em mim,
e à maré:
modelando,
embalando,
carregando
este veleiro que vai firme ao seu fim...
ir...
ir...
ir.

3.8.10

Poemetos geniais II [de ontem - Sobre peixes]

Peixolhos, desta vez invadem a tela do paintbrush.


Poema Ímpar

Dois peixes num aquário a olhar

os peixes d’outro aquário a brilhar;

Dois peixes e dois peixes, em par.


.oOºOo.


Poema para montar

Então se vê:

Nadando a esmo,

d’um aquário,

na cidade,

os peixes

não vêem.


.oOºOo.


Lembrete sobre a rachadura do aquário

E vede o vão

d’onde esvai

a vida,

viu?


.oOºOo.


Poemolhado

Num mar de olhos,

Tudo quer ser (m)olhado.




[Todos rascunhados numa sulfite rosa, à bic laranja; rabiscados, referenciados por várias setas, com desenhos estranhos ao lado, metrificados... mas não passam de uma tentativa de extração de imagens a partir de uma imagem que persiste entre meus desenhos: PEIXOLHOS.]

Poemetos "geniais" I [de ontem - Reflexões acerca duns fatos]

Poema da Misericórdia


Deus faz gente estranha,

com o coração cheio de miséria.


- + -


Poema Cristão


Rezava direito,

Andava direito,

Falava direito,

Mas escrevia com a esquerda.



[rabiscados após percebem caricaturas cotidianas, bizarras, e achar que davam um bom assunto em versos. Bobagem. Numa folha rosa, à caneta laranja]

2.8.10

Poemeto da adaptação

Frio que corre o espinhaço
freme as mãos e os lábios,
freezer instantâneo.

Labiosa, labiríntica...
neste frasco lábil,
pouco tremo.




[estudo direto: tradução do tempo e da figura, com um pouco de sensação]