12.1.14

O fato é que nunca sabemos o que cada um guarda no seu espaço íntimo e protegido.
Eu queria poder contar o que levo no meu.
Hoje, enquanto brincava na piscina, tive um lampejo quase que corpóreo. Cada toque da água e cada pensamento ajudaram a compor uma ideia que esmoreceu e juntou-se à piscina cavalgando o rio que fluia dos meus olhos.
Era qualquer coisa fugidía, dessas que nao sei falar, apenas tocar em planos muito mais submersos.

10.1.14

A estrada (poema para muitas coisas)

Gosto de perder o fôlego
nas curvas macias da estrada,
mas ainda sinto o cheiro de lar.

Sôfrega, sopro as palavras,
lumes inauditos que circundam seu abraço;
não há caminho mais tortuoso
que almejar um destino e nunca chegar.

Bom mesmo é correr sem rumo,
levando a estrada como vem.

Ligo o rádio e o quadro parece perfeito...
no porta-copos uma dose de café amargo...
e o resto é só fumaça..

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Este é um exemplo de poema trabalhado - não à exaustão, para que fique absolutamente perfeito (para meu gosto: métrica, rimas calculadas e internas, palavras escolhidas a dedo, assunto tão digerido que parece outro). Venho publicando aqui, normalmente, poemas de fluxo, isto é, coisas que escrevo rapidamente e provavelmente não corrijo - às vezes até leio uma vez para corrigir erros de digitação e arrumar pontuação/maiúsculas, no máximo.
Minha intenção, com esta publicação, é mostrar as metáforas trabalhadas a partir da ideia original... talvez seja possível perceber como funcionam na minha cabeça e como as utilizo nos escritos... daqui e de outros lugares também.
Deixo o original a seguir e a primeira etapa de trabalho. O original (1) é o texto em fluxo (daí verão que, quando alguma coisa quer sair e eu escrevo e acho que ficou muito ruim pro meu padrão de escrita, mas não quero abrir mão da ideia, acontece a "mágica"); o texto com a primeira "mexida" nas palavras (2) também serve para calcular exatamente o que eu quero dizer e como posso chegar lá, escolho "temas" nesta etapa e vou selecionando os vocábulos e os posicionando; o texto final é a segunda "mexida" já com complementos necessários, normalmente eu não paro aí, eu continuo mexendo arrumando palavras estranhas, reorganizando trechos para que fiquem mais bonitos e bem colocados no texto... às vezes metrifico... e daí fica mais ou menos bom, ahahahaha.
Seguem:

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Todos os teus fios devem conter um abraço aconchegante para o mundo. Do tipo que envolve por completo, como um abrigo seguro, secreto, com cheiro de uma intimidade de lar.
Respiro fundo ao teu lado, espantando os lumes inauditos com fortes, mas imprevisíveis e intraduzíveis, sopros que partem da minha consciência pro espaço das palavras... (até aqui, estava muito empolgada com o texto, o achava realmente promissor, ahahaha)
Desconsidero tudo o que acontece no meu universo particular para tentar compreender o quando estamos juntos e o quando nos separamos e fico na ânsia de encontrar-te novamente...
(Se dissesses apenas uma palavra que te definisse neste meu vendaval de tudo, acho que eu passaria mais tranquila por toda essa vivência de agora... mas eu estou confusa.) (então comecei a fazer caretas e a pensar no quanto eu estava sendo brega e escrevendo mal... mas continuei a escrever pra ver onde ia chegar... às vezes, apago tudo quando chego neste ponto)

O amor não é condição, e isso é um fato do qual não posso me desvencilhar nesse vida - talvez, se acreditas também, nem em algumas próximas, tão profundo... - e não é do que eu reclamo... 
Eu reclamo de não saber entender tanto amor.
Então prefiro me afastar, pra pôr as ideias no lugar e respirar sem dificuldades. (ok, não ia muito mais longe, hora de arrumar a caca toda)

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Então me abraças com cheiro de lar,
respiro com dificuldade de definir o universo,
e os lumes inauditos rondam o teu abraço; (sintetizar ideias me ajuda muito no processo de criar metáforas e abordar temas que tornem o meu texto uma unidade mais sólida)
os sopro com a força das palavras que permeiam seguras a minha consciência,
às vezes, isso gera algum desconforto
mas este momento e a ânsia por repeti-lo me põem confusa
Amar a ti não é (pronto, começou a ficar ruim de novo, mas já entendi o que queria com o texto; hora de pôr tudo a limpo e recomeçar - muitas vezes, o tema já aparece neste ponto, bem definido e escrito... mas eu ainda não sabia o que utilizaria, apenas quando simplifiquei e organizei melhor a ideia foi que achei que poderia lidar com "estrada", então passei o texto a limpo, usando o tema e ficou daquele jeito.)

3.1.14

Para fugir da angústia

E então o que é que tem naquele micro espasmo que percorre as vias do meu corpo lentamente...?
Sinto o toque que rebenta a fina barreira entre a razão e o delírio. Transpasso as bordas como se não houvesse perigos, mas vejo os abismos que desenham esses dois pensamentos de imensidão... brinco despreocupada e me sinto liberta... não importa mais saber qual dimensão do desejo meu corpo desafiará.
Desatar nós é algo que sempre me surpreende, pois passo muito tempo puxando e apertando os fios até que deixem de se mover e eu resolva analisar, de bem perto, o estrago que lhes causei. Sempre me parece que nasceram grudados, no fim. Então, tento com a boca. Acho que daí passa um mundo de coisas que me faz desistir desta ação. Respiro fundo e, pacientemente, passo a puxar o fio de cima... posso até ferir meus dedos, mas o fio vai sair dali.
Depois de desfeito, o nó se torna muita metafísica pra digerir... mas nada clichê, como "resolução de conflitos", não, é algo mais como... "estrada para o infinito"... me torno todos os viajantes literários... Alice, Crusoé, Dr. Lidenbrock, Phileas Fogg... não sei o que acontece... me perco em mim e esqueço de completar a tarefa, largo pelo meio caminho...
Tamanha admiração se dá quando observo o nó que tem no meu pensamento sensível... tento desatá-lo há anos, e só posso acreditar que essa persistência é fruto de querer logo largar pela metade. Tenho pra mim que sou dessas pessoas vingativas.

2.1.14

Na cama, passo as horas

Devoro as horas
sem vontade, culpada.
Enquanto a alma fervilha e o corpo rola para ajeitar a coluna,
consumo todos os minutos com nada.
E tanto a fazer...
Por que não respondo?
Por que não insisto?

Deveria estar num outro tipo de nó, neste momento,
mas o enrosco das horas, os tique taques silenciosos que ecoam somente na minha memória,
me desesperam com a pergunta: o que vai fazer agora?
Eu, a nadar braçadas no fofo, me descabelo e nada argumento.

Descompasso desde o passo com que iniciei o ano vindouro,
dourado no céu de breu; um passo largo, que evitava abraços,
desejando que neste ritual houvesse uma labareda gigante,
batuques, corpos nus e oleosos a dançar eternamente,
saboreando a colheita das horas passadas...

E, vestida com quaisquer roupas, descabelada, destalhada, em ruína de guerra,
choraminguei timidamente, sozinha em meio aos abraços familiares.

Queria fugir.
Fugir da cabeça.
Fazer o impossível.
Fazer o inadmissível.
Silenciar a voz tresloucada que permeia cada finta do meu pensamento.
Não.
Silenciar tudo.
Curtir o vazio mais significativo da minha existência.

Um mundo sem pensamentos e sem palavras, só corpo completamente nu.
Por dois segundos estava bom, o suficiente pra pregar uma peça de tremer as bases da consciência...
e me fazer reagir da letargia em que estão todos os significados da minha existência.
Acho que essa é a definição da vida, enfim.

1.1.14

No relógio, três vezes o três me leva ao lugar
de doce expectativa, que filtra os amores do mundo
e os põe todos em meu vasto espaço vazio.
Vazo pela fresta e, um naco de tempo depois,
toda a ânsia se vai e eu permaneço...
calada, sofrendo, sentida, desprovida dos teus abraços,
da tua fala, do teu tempo...
como é difícil levar uma vida pra decifrar um desejo!
- se eu soubesse, teria evitado,
teria fechado meus ouvidos pr'aquele teu silvo que soou por dias,
ecoando incansavelmente dentro da minha existência incompleta.
Naquele instante eu te amei pela primeira vez e nem desconfiei.
Se houvesse evitado botar reparo em como teus olhos eram uma armadilha pra minha curiosidade...
se..
se acaso nunca tivéssemos nos encontrado... nunca...
esse momento seco e amargo, moído manualmente no pilão das horas,
jamais, jamais me visitaria.
Beiro novamente o sentimento inteiro do amor,
sou aquela interpretação urgente,
desesperada por delicados contornos mas, vou te dizer,
necessitada igualmente do desalinho: eu te odeio com a mesma intensidade com que te amo.
Odiar desconstrói muros que modelam, mas que limitam algo que é um colosso.
Muros deveriam ter a mesma responsabilidade moral com que são criadas as obras naturais da existência;
mas sempre me vejo cercada e sem saída após vislumbrar o cuidadoso trabalho que construí com tanta persistência e gozo...
cercada, porque a obra inútil parece linda ao mesmo tempo em que se mostra incólume e intocável.
Não gosto do que é intocável.
Eu gosto do toque sobre minha pele, o toque que revela sensações e concretiza ideias intocáveis no momento em que são apenas admiradas.
E eu abro meu coração para te dizer que não gosto do que é intocável porque eu mesma me mantive nessa forma durante quase toda a minha vida... até agora.
Agora experimentei e aceitei que tudo necessita de seu próprio espaço, tempo... para tudo, para durar, para fenecer...
construir muros, todavia, é algo do qual não abdicarei, mas que se tornou uma de minhas habilidades mais especiais neste momento.
Construo, observo, desconstruo, deixo, retomo, faço todas as manobras da vida sem sofrer mais do que exigem de mim...
Mas o ódio se tornou uma ferramenta interessante e absolutamente necessária em minhas mãos...
porque agora só faz sentido e só é genuíno o amor quando o ódio lhe segue de perto.
Odiar tem sido uma maneira de amar que venho compreendendo e necessitando.
Eu te amo completamente, e acho que isso é o amor mais honesto e sincero que poderei te oferecer.
E belo.
Porque não há, igualmente, o belo sem o grotesco.