10.1.14

A estrada (poema para muitas coisas)

Gosto de perder o fôlego
nas curvas macias da estrada,
mas ainda sinto o cheiro de lar.

Sôfrega, sopro as palavras,
lumes inauditos que circundam seu abraço;
não há caminho mais tortuoso
que almejar um destino e nunca chegar.

Bom mesmo é correr sem rumo,
levando a estrada como vem.

Ligo o rádio e o quadro parece perfeito...
no porta-copos uma dose de café amargo...
e o resto é só fumaça..

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Este é um exemplo de poema trabalhado - não à exaustão, para que fique absolutamente perfeito (para meu gosto: métrica, rimas calculadas e internas, palavras escolhidas a dedo, assunto tão digerido que parece outro). Venho publicando aqui, normalmente, poemas de fluxo, isto é, coisas que escrevo rapidamente e provavelmente não corrijo - às vezes até leio uma vez para corrigir erros de digitação e arrumar pontuação/maiúsculas, no máximo.
Minha intenção, com esta publicação, é mostrar as metáforas trabalhadas a partir da ideia original... talvez seja possível perceber como funcionam na minha cabeça e como as utilizo nos escritos... daqui e de outros lugares também.
Deixo o original a seguir e a primeira etapa de trabalho. O original (1) é o texto em fluxo (daí verão que, quando alguma coisa quer sair e eu escrevo e acho que ficou muito ruim pro meu padrão de escrita, mas não quero abrir mão da ideia, acontece a "mágica"); o texto com a primeira "mexida" nas palavras (2) também serve para calcular exatamente o que eu quero dizer e como posso chegar lá, escolho "temas" nesta etapa e vou selecionando os vocábulos e os posicionando; o texto final é a segunda "mexida" já com complementos necessários, normalmente eu não paro aí, eu continuo mexendo arrumando palavras estranhas, reorganizando trechos para que fiquem mais bonitos e bem colocados no texto... às vezes metrifico... e daí fica mais ou menos bom, ahahahaha.
Seguem:

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Todos os teus fios devem conter um abraço aconchegante para o mundo. Do tipo que envolve por completo, como um abrigo seguro, secreto, com cheiro de uma intimidade de lar.
Respiro fundo ao teu lado, espantando os lumes inauditos com fortes, mas imprevisíveis e intraduzíveis, sopros que partem da minha consciência pro espaço das palavras... (até aqui, estava muito empolgada com o texto, o achava realmente promissor, ahahaha)
Desconsidero tudo o que acontece no meu universo particular para tentar compreender o quando estamos juntos e o quando nos separamos e fico na ânsia de encontrar-te novamente...
(Se dissesses apenas uma palavra que te definisse neste meu vendaval de tudo, acho que eu passaria mais tranquila por toda essa vivência de agora... mas eu estou confusa.) (então comecei a fazer caretas e a pensar no quanto eu estava sendo brega e escrevendo mal... mas continuei a escrever pra ver onde ia chegar... às vezes, apago tudo quando chego neste ponto)

O amor não é condição, e isso é um fato do qual não posso me desvencilhar nesse vida - talvez, se acreditas também, nem em algumas próximas, tão profundo... - e não é do que eu reclamo... 
Eu reclamo de não saber entender tanto amor.
Então prefiro me afastar, pra pôr as ideias no lugar e respirar sem dificuldades. (ok, não ia muito mais longe, hora de arrumar a caca toda)

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Então me abraças com cheiro de lar,
respiro com dificuldade de definir o universo,
e os lumes inauditos rondam o teu abraço; (sintetizar ideias me ajuda muito no processo de criar metáforas e abordar temas que tornem o meu texto uma unidade mais sólida)
os sopro com a força das palavras que permeiam seguras a minha consciência,
às vezes, isso gera algum desconforto
mas este momento e a ânsia por repeti-lo me põem confusa
Amar a ti não é (pronto, começou a ficar ruim de novo, mas já entendi o que queria com o texto; hora de pôr tudo a limpo e recomeçar - muitas vezes, o tema já aparece neste ponto, bem definido e escrito... mas eu ainda não sabia o que utilizaria, apenas quando simplifiquei e organizei melhor a ideia foi que achei que poderia lidar com "estrada", então passei o texto a limpo, usando o tema e ficou daquele jeito.)