Devoro as horas
sem vontade, culpada.
Enquanto a alma fervilha e o corpo rola para ajeitar a coluna,
consumo todos os minutos com nada.
E tanto a fazer...
Por que não respondo?
Por que não insisto?
Deveria estar num outro tipo de nó, neste momento,
mas o enrosco das horas, os tique taques silenciosos que ecoam somente na minha memória,
me desesperam com a pergunta: o que vai fazer agora?
Eu, a nadar braçadas no fofo, me descabelo e nada argumento.
Descompasso desde o passo com que iniciei o ano vindouro,
dourado no céu de breu; um passo largo, que evitava abraços,
desejando que neste ritual houvesse uma labareda gigante,
batuques, corpos nus e oleosos a dançar eternamente,
saboreando a colheita das horas passadas...
E, vestida com quaisquer roupas, descabelada, destalhada, em ruína de guerra,
choraminguei timidamente, sozinha em meio aos abraços familiares.
Queria fugir.
Fugir da cabeça.
Fazer o impossível.
Fazer o inadmissível.
Silenciar a voz tresloucada que permeia cada finta do meu pensamento.
Não.
Silenciar tudo.
Curtir o vazio mais significativo da minha existência.
Um mundo sem pensamentos e sem palavras, só corpo completamente nu.
Por dois segundos estava bom, o suficiente pra pregar uma peça de tremer as bases da consciência...
e me fazer reagir da letargia em que estão todos os significados da minha existência.
Acho que essa é a definição da vida, enfim.