1.1.14

No relógio, três vezes o três me leva ao lugar
de doce expectativa, que filtra os amores do mundo
e os põe todos em meu vasto espaço vazio.
Vazo pela fresta e, um naco de tempo depois,
toda a ânsia se vai e eu permaneço...
calada, sofrendo, sentida, desprovida dos teus abraços,
da tua fala, do teu tempo...
como é difícil levar uma vida pra decifrar um desejo!
- se eu soubesse, teria evitado,
teria fechado meus ouvidos pr'aquele teu silvo que soou por dias,
ecoando incansavelmente dentro da minha existência incompleta.
Naquele instante eu te amei pela primeira vez e nem desconfiei.
Se houvesse evitado botar reparo em como teus olhos eram uma armadilha pra minha curiosidade...
se..
se acaso nunca tivéssemos nos encontrado... nunca...
esse momento seco e amargo, moído manualmente no pilão das horas,
jamais, jamais me visitaria.
Beiro novamente o sentimento inteiro do amor,
sou aquela interpretação urgente,
desesperada por delicados contornos mas, vou te dizer,
necessitada igualmente do desalinho: eu te odeio com a mesma intensidade com que te amo.
Odiar desconstrói muros que modelam, mas que limitam algo que é um colosso.
Muros deveriam ter a mesma responsabilidade moral com que são criadas as obras naturais da existência;
mas sempre me vejo cercada e sem saída após vislumbrar o cuidadoso trabalho que construí com tanta persistência e gozo...
cercada, porque a obra inútil parece linda ao mesmo tempo em que se mostra incólume e intocável.
Não gosto do que é intocável.
Eu gosto do toque sobre minha pele, o toque que revela sensações e concretiza ideias intocáveis no momento em que são apenas admiradas.
E eu abro meu coração para te dizer que não gosto do que é intocável porque eu mesma me mantive nessa forma durante quase toda a minha vida... até agora.
Agora experimentei e aceitei que tudo necessita de seu próprio espaço, tempo... para tudo, para durar, para fenecer...
construir muros, todavia, é algo do qual não abdicarei, mas que se tornou uma de minhas habilidades mais especiais neste momento.
Construo, observo, desconstruo, deixo, retomo, faço todas as manobras da vida sem sofrer mais do que exigem de mim...
Mas o ódio se tornou uma ferramenta interessante e absolutamente necessária em minhas mãos...
porque agora só faz sentido e só é genuíno o amor quando o ódio lhe segue de perto.
Odiar tem sido uma maneira de amar que venho compreendendo e necessitando.
Eu te amo completamente, e acho que isso é o amor mais honesto e sincero que poderei te oferecer.
E belo.
Porque não há, igualmente, o belo sem o grotesco.