11.8.10

Juglandácea [a ideia do jogo do dicionário]

Cultivei, num pequeno buraco, uma semente. Tão dura, tão seca, tão áspera, tão feia era, que expectativas não brotavam. Ao mesmo tempo, cultivei, no abismo do tempo, uma expectativa. Tão grande, tão vistosa, tão forte, tão... que a espera era dolorosa. O final clichê da mensagem: a semente brotou, cresceu, sem alarde. A expectativa minguou rapidamente na queda. Agora o poema em construção:


Me joguei,
esperando alcançar a sublime essência celestial.
Doloroso foi chegar ao terreno seco.

Dias longos arrastaram-se sem piedade sobre a minha carcaça,
e o vento cobriu-me com um manto poeirento.
Adormeci sem sonhos.

Então, brotei
[...]

ju.glan.dá.cea s.f. BOT espécime das juglandáceas, família de árvores e arbustos aromáticos, cultivados como ornamentais, pela madeira e por seus frutos com sementes comestíveis, como a noz e a pecã ~juglandáceo adj [míni Houaiss]

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Jogo do dicionário é para gente entediada. Abre-se o dicionário numa página qualquer e um verbete aleatório vira tema. Daí, a pessoa entediada tem uns dias pra refletir, encontrar uma figura poética e escrever alguma coisa que seja boa ou inteligente. Acontece que eu tô querendo trapacear e escolher outra palavra aleatória. Mas trapaça não é uma coisa muito bonita e nem muito construtora da personalidade consistente que tanto almejo.
Foi assim: peguei a palavra, não tive ideia do que fazer com ela; mal pensei e cheguei num clichê daqueles bem batidos; fiquei com preguiça e larguei o jogo pela metade. Entretanto, isto virou uma questão de honra. Resolvi postar essa coisa para me obrigar a pensar em outra coisa melhor.
[E, sim. É questão da monografia também.]
Pra salvar este post, vou dizer a metáfora perfeita mais linda de hoje, que merece muito mais que uns tweets.

Onde eu trabalho, eu tenho o maior prazer do mundo. E eu tenho a sorte de ouvir coisas maravilhosas das crianças. Coisas que eles dizem sem medo, sem procurar por recompensas, sem achar que dizem besteiras.
O meu maior defeito é não registrar. Eu sou bem hedonista mesmo, curto o momento, me delicio, preservo um pouco na memória e daí, fico sempre a espera do próximo momento.
Conversando com a estagiária hoje, contei dos meus projetos deste ano e disse da minha preocupação em trabalhar a linguagem. (eu acredito sinceramente que quem sabe se expressar, se comunicar com eficiência, é a pessoa mais feliz e bem vista no mundo) Mas também falei deste meu defeito em não registrar as coisas que acontecem.
Cheguei em casa com a conversa na cabeça e conclui que eu vou trabalhar isto (rsrs...).

Hoje eu tive o prazer de ouvir de uma das crianças da minha turma a coisa mais linda.
Pra explicar mais ou menos de onde veio, a base histórica da coisa, rs...: estamos estudando botânica estes dias. E eu encontrei um livro muito legal, lá na estante da biblioteca, sobre plantio; com dicas para cultivar as mais variadas sementes, bulbos e mudas.
Daí, levei o livro para eles e propus uns dias para plantarmos algumas daquelas coisas (feijão, amaryllis e mudas de árvores para recuperar o jardim que foi destruído com a reforma da escola).
Noutro dia, levei os bulbos para que eles pudessem ver que a figura do livro era de verdade mesmo e que a gente ia mesmo plantar. Este dia foi praticamente um milagre: sem ter o que fazer (reforma, chuva e muitas crianças entediadas com a semana longa) sentei com eles e ficamos durante quase 2h conversando sobre o assunto. Contei sobre o plantio e comparei o crescimento das plantas ao crescimento da gente.
Hoje, durante o almoço, a fruta servida foi mexerica. Disse, sem dar conta, para prestarem atenção aos caroços. E seguiu isso:

"T: PRÔ, PRÔ!!! EU TIVE UMA IDEIA!!!
Eu: Que ideia você teve, Thalles?
T: O caroço da mexerica é uma semente, não é?
Eu: Isso mesmo! O caroço é uma semente. Muito bem!
T: Então a gente pode plantar, não é?
Eu: Sim, a gente pode plantar. [aqui eu já estava muito feliz]
T: E que tal se a gente plantar?
Eu: Mas que ideia boa você teve! Vamos fazer assim então: separa as suas sementes aí que eu vou contar a sua ideia para os seus amigos e pedir para que eles as separem também, tá?"

Passei de mesa em mesa e contei para as crianças a ideia e elas ficaram MUITO empolgadas! Corri até à secretaria, peguei um saquinho para que eles colocassem as sementes dentro e quando voltei foi que aconteceu. O Thalles estava abrindo todos os gomos da mexerica e separando as sementes, rsrs... e daí, quando ele me viu, disse:

"PRÔ! OLHA, PRÔ, QUE LEGAL! Os bebês sementes estão saindo de dentro do ovo laranja! AI QUE LINDO!"

E eu só queria ter filmado pra guardar isso melhor na minha memória. A carinha dele estava ótima, os olhinhos brilhando e, todo melecado com o suco a mexerica, ele sorria e repetia a metáfora: Esse ovo laranja é lindo, e os bebês também!

(Então cheguei em casa e minha mente preocupada com a criação de metáforas perfeitas não conseguiu estudar a botânica de uma mera Juglandácea. Acho que vou pedir socorro ao meu querido aluno, rsrs...)