3.1.11

Do diário

Eu estava querendo uma coisa antiga que havia escrito, mas não lembrava onde estava... por fim, fui mexer no diário (aquele, o espaço em que só eu posso mexer, mas que nem mesmo lá eu conto tudo pra mim mesma) e encontrei o que queria.
Por alguma razão, talvez uma resposta para uma prima muito querida (que queria saber o que era crescer) vou colar aqui o meu primeiro estranhamento (que só ela entenderá, já que o motivo é o mesmo).
Para os outros, se é que há outros além de mim, talvez não caia muito bem, já que não é propriamente algo trabalhado para ser exposto aqui.
(de 2005 e 2006 - sem edição neste diário/caderno de estudo que é público)

(atualiz.:e olha a metáfora do oceano ali... nem havia visto! eheheh//fui mexer nesse diário porque precisava migrar pro wordpress, parece... será que ficou público? #medo)

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Máquina do Tempo – O estranho olhar que meu avô tem ao tocar uma moda de viola em seu bom e velho violão

Estava sentada sobre a bacia de louça, com um caderno nos joelhos e uma caneta que rodava entre as minhas mãos. Todo o resto dormia, exceto a rua lá fora, onde os carros passavam distribuindo sons e luzes. A porta sanfonada do recinto estava aberta e um corpo com barulhos de sono se fazia presente no cômodo ao lado. A luz era tão amarelada, que fazia com que o toillet onde me encontrava viajasse no tempo.

Para o passado! Não há nada que a gente sinta mais falta que das coisas que já se passaram. Para o passado! Que é tão bem representado com fotos dessa coloração já citada.

Difícil é explicar o que eu sentia… senti como se o cubículo azulejado onde eu estava de repente parasse de contar o tempo. Senti-me como se estivesse presa num álbum de retratos. E, por um longo momento, senti-me inexistente. Nem os roncos dos carros da rua, nem os do corpo do cômodo ao lado ilustravam-se mais. Então vieram os apertos no peito e a tristeza profunda, uma nostalgia que veio sem ser chamada.

Contemplei a menina de vestido rodado que passava dançando, enquanto os ouvidos da minha memória escutavam o som de uma música caipira que estava sendo tocada no violão de um senhor de cabelos, barba e bigode negros. Outra menina acabava de chegar e, dando as mãos com a dançarina, esboçava passos nunca imaginados por profissionais famosos dessa arte.

Eles pareciam tão felizes!

Mas logo veio o tempo que empesteou de fios brancos os cabelos do avô, que agora tocava solitariamente seu violão – talvez preso em seu álbum de retratos – e as meninas, que não trajavam mais vestidos rodados, estavam agora deitadas numa cama, discutindo calorosamente a respeito de suas próprias vidas de adolescentes.

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É antigo… mas que saudade eu tenho de você, vozinho lindo… hoje é dia do seu aniversário e amanhã eu o verei e lhe abraçarei bem forte para matar um pouco dessa saudade.

Hoje estou adulta, mesmo que recém saída da adolescência, e vivo todo o tempo que é possível ao seu lado e ao lado da minha avó, porque sei que um dia não estarão mais presentes de corpo aqui… e eu sei que eu vou sentir muita falta, mas muita falta mesmo de vocês dois… e essa saudade antecipada já me traz algumas dores, embora me torne mais forte pra aguentar o que provavelmente vem por aí.

O problema é que a gente nunca pode prever o que acontece. E assim foi o que aconteceu esses dias; amanhã vou contar tudo para a minha avó e procurar saber o que ela acha… será que de fato estou comovida com alguma coisa que não pretendia estar?

E isso está doendo mais que tudo, porque é um nó que não ata e nem desata… é uma situação que eu não posso resolver, porque não depende apenas do meu aval… rs… e isso me traz uma angústia sem tamanho.

E me pergunto outra vez… "é isto que é crescer?"; "é isto que é sentir?".

Estou me sentindo uma idiota. Idiota, idiota, idiota, rs…

Mas tenho uma novidade… não estou nem aí se estou realmente sendo idiota. Nem se estou sendo qualquer outra coisa e passando qualquer outra imagem… olhando a listagem que fiz com os adjetivos que me empregam, percebi que é por demais extensa e por vezes muito contraditória. a maior contradição é que todo mundo acha que sou mais exata que inexata… logo, todos devem estar errados. Mesmo que estejam certos.

E daí?

Estou pintando novamente a minha face, desta vez sem remorso algum. Estou saindo da minha própria tempestade e afundando meu navio num oceano que eu nem pretendia visitar.

Deuses traiçoeiros.