Estava pensando no quanto uma pessoa consegue segurar uma bomba. Assim, sem saber de origens, sem saber de destinos, sem saber de suas características, sem saber de nada, nada.
Estava pensando na capacidade de esperar pelo inesperável. Assim, com todas as letras, inesperável. Pelo imprevisível inesperável.
Pelo inesperável apreensível...
É que eu tenho uma bomba antiga e caminho com ela o tempo todo. Às vezes penso que nunca mais terei que carregá-la, mas, quando percebo, lá está ela... amarrada a mim por uma corrente indestrutível. A bomba que destroi.
Talvez a bomba destrua a corrente quando finalmente explodir. A corrente indestrutível.
Estava pensando... se essa sensação é algo memorável. Se alguém pode ficar feliz e orgulhoso de sentir esse peso, essa responsabilidade. Segurar levianamente uma bomba destruidora atada por uma corrente indestrutível, esperando pelo imprevisível inesperável. Apreensível.
A marca da corrente deixa um rastro para compreender o mínimo. O mínimo dessa bomba quase que amalgamada a minha alma.
E o que fazer além de carregar e esperar? O que é possível fazer com esta prisão que me persegue onde quer que eu vá?
O que fazer com essa porção de sentimentos presos e que não deixam de crescer e tomar os pequenos espaços que ainda restam dentro da bomba? E quando eles não couberem mais?
Eles serão extinguidos? Eles crescerão infinitamente numa proporção astronômica e incalculável? Estes sentimentos presos vão fugir quando repararem o horror que os circundará? Vão procurar quaisquer coisas alcançáveis para serem plenos, enfim?
E as tantas outras possibilidades intraduzíveis?
O que fazer com esse objeto? O que esperar, enfim? O que calcular? E a coragem para explodi-lo e sair desta angústia que é a espera? Espera pelo inesperável.
[escrito num fluxo de pensamentos, em poucos minutos, sem correção. Uma tentativa falha de traduzir um sentimento, talvez uma mescla de angústia com frustração e um tanto de medo. Um sentimento que me ronda e do qual não consigo me desapegar, talvez seja por isso que ele insista em voltar com o mínimo de incentivo - como um convite, ou uma fala animadora sobre algo que nunca irá se concretizar.]