26.2.14

E mais uma vez...

pego a folha rabiscada, alisada, craquelada pelo tempo e pelas mãos que um dia a tornaram uma pequena bola, com um buraco negro dentro, de tanto espremer, apertar, fincar no próprio peito até lacerar e demarcar a área onde deveria ser plantada, quem sabe nasce um pequeno arbusto, de palavras sem odores, cafés insípidos, abraços sem calor... quem sabe não cresce a erva daninha que mata tudo, e enterra no fundo da alma um sentido que nessa existência deveria ter passado só enterrado, sem respiro, no claustro, sem vida, sem luz, sem ar, sem nada. É o tamanho da folha agora: pequena bola amassada, num punho cerrado que quase sangra a palma desavisada... mas não por não querer se desfazer, e sim pra ter certeza de que ali está se criando o buraco negro.
A bola sobre e desce no ar sem movimento, num paradoxo a se pensar... e a mira é para o cesto. Longe, antes impossível, agora já bem certo no lugar. Era assim, já não é mais, as coisas crescem e mudam de importância.
E então, transpassa silenciosamente, quase numa trilha rarefeita, querendo voltar de tanto atrito... não volta, não! Não vai ter mão pra te apanhar!
Cai no cesto e fim: vira-se a página.

12.1.14

O fato é que nunca sabemos o que cada um guarda no seu espaço íntimo e protegido.
Eu queria poder contar o que levo no meu.
Hoje, enquanto brincava na piscina, tive um lampejo quase que corpóreo. Cada toque da água e cada pensamento ajudaram a compor uma ideia que esmoreceu e juntou-se à piscina cavalgando o rio que fluia dos meus olhos.
Era qualquer coisa fugidía, dessas que nao sei falar, apenas tocar em planos muito mais submersos.

10.1.14

A estrada (poema para muitas coisas)

Gosto de perder o fôlego
nas curvas macias da estrada,
mas ainda sinto o cheiro de lar.

Sôfrega, sopro as palavras,
lumes inauditos que circundam seu abraço;
não há caminho mais tortuoso
que almejar um destino e nunca chegar.

Bom mesmo é correr sem rumo,
levando a estrada como vem.

Ligo o rádio e o quadro parece perfeito...
no porta-copos uma dose de café amargo...
e o resto é só fumaça..

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Este é um exemplo de poema trabalhado - não à exaustão, para que fique absolutamente perfeito (para meu gosto: métrica, rimas calculadas e internas, palavras escolhidas a dedo, assunto tão digerido que parece outro). Venho publicando aqui, normalmente, poemas de fluxo, isto é, coisas que escrevo rapidamente e provavelmente não corrijo - às vezes até leio uma vez para corrigir erros de digitação e arrumar pontuação/maiúsculas, no máximo.
Minha intenção, com esta publicação, é mostrar as metáforas trabalhadas a partir da ideia original... talvez seja possível perceber como funcionam na minha cabeça e como as utilizo nos escritos... daqui e de outros lugares também.
Deixo o original a seguir e a primeira etapa de trabalho. O original (1) é o texto em fluxo (daí verão que, quando alguma coisa quer sair e eu escrevo e acho que ficou muito ruim pro meu padrão de escrita, mas não quero abrir mão da ideia, acontece a "mágica"); o texto com a primeira "mexida" nas palavras (2) também serve para calcular exatamente o que eu quero dizer e como posso chegar lá, escolho "temas" nesta etapa e vou selecionando os vocábulos e os posicionando; o texto final é a segunda "mexida" já com complementos necessários, normalmente eu não paro aí, eu continuo mexendo arrumando palavras estranhas, reorganizando trechos para que fiquem mais bonitos e bem colocados no texto... às vezes metrifico... e daí fica mais ou menos bom, ahahahaha.
Seguem:

--------------------1-----------------------

Todos os teus fios devem conter um abraço aconchegante para o mundo. Do tipo que envolve por completo, como um abrigo seguro, secreto, com cheiro de uma intimidade de lar.
Respiro fundo ao teu lado, espantando os lumes inauditos com fortes, mas imprevisíveis e intraduzíveis, sopros que partem da minha consciência pro espaço das palavras... (até aqui, estava muito empolgada com o texto, o achava realmente promissor, ahahaha)
Desconsidero tudo o que acontece no meu universo particular para tentar compreender o quando estamos juntos e o quando nos separamos e fico na ânsia de encontrar-te novamente...
(Se dissesses apenas uma palavra que te definisse neste meu vendaval de tudo, acho que eu passaria mais tranquila por toda essa vivência de agora... mas eu estou confusa.) (então comecei a fazer caretas e a pensar no quanto eu estava sendo brega e escrevendo mal... mas continuei a escrever pra ver onde ia chegar... às vezes, apago tudo quando chego neste ponto)

O amor não é condição, e isso é um fato do qual não posso me desvencilhar nesse vida - talvez, se acreditas também, nem em algumas próximas, tão profundo... - e não é do que eu reclamo... 
Eu reclamo de não saber entender tanto amor.
Então prefiro me afastar, pra pôr as ideias no lugar e respirar sem dificuldades. (ok, não ia muito mais longe, hora de arrumar a caca toda)

--------------------2-----------------------

Então me abraças com cheiro de lar,
respiro com dificuldade de definir o universo,
e os lumes inauditos rondam o teu abraço; (sintetizar ideias me ajuda muito no processo de criar metáforas e abordar temas que tornem o meu texto uma unidade mais sólida)
os sopro com a força das palavras que permeiam seguras a minha consciência,
às vezes, isso gera algum desconforto
mas este momento e a ânsia por repeti-lo me põem confusa
Amar a ti não é (pronto, começou a ficar ruim de novo, mas já entendi o que queria com o texto; hora de pôr tudo a limpo e recomeçar - muitas vezes, o tema já aparece neste ponto, bem definido e escrito... mas eu ainda não sabia o que utilizaria, apenas quando simplifiquei e organizei melhor a ideia foi que achei que poderia lidar com "estrada", então passei o texto a limpo, usando o tema e ficou daquele jeito.)

3.1.14

Para fugir da angústia

E então o que é que tem naquele micro espasmo que percorre as vias do meu corpo lentamente...?
Sinto o toque que rebenta a fina barreira entre a razão e o delírio. Transpasso as bordas como se não houvesse perigos, mas vejo os abismos que desenham esses dois pensamentos de imensidão... brinco despreocupada e me sinto liberta... não importa mais saber qual dimensão do desejo meu corpo desafiará.
Desatar nós é algo que sempre me surpreende, pois passo muito tempo puxando e apertando os fios até que deixem de se mover e eu resolva analisar, de bem perto, o estrago que lhes causei. Sempre me parece que nasceram grudados, no fim. Então, tento com a boca. Acho que daí passa um mundo de coisas que me faz desistir desta ação. Respiro fundo e, pacientemente, passo a puxar o fio de cima... posso até ferir meus dedos, mas o fio vai sair dali.
Depois de desfeito, o nó se torna muita metafísica pra digerir... mas nada clichê, como "resolução de conflitos", não, é algo mais como... "estrada para o infinito"... me torno todos os viajantes literários... Alice, Crusoé, Dr. Lidenbrock, Phileas Fogg... não sei o que acontece... me perco em mim e esqueço de completar a tarefa, largo pelo meio caminho...
Tamanha admiração se dá quando observo o nó que tem no meu pensamento sensível... tento desatá-lo há anos, e só posso acreditar que essa persistência é fruto de querer logo largar pela metade. Tenho pra mim que sou dessas pessoas vingativas.

2.1.14

Na cama, passo as horas

Devoro as horas
sem vontade, culpada.
Enquanto a alma fervilha e o corpo rola para ajeitar a coluna,
consumo todos os minutos com nada.
E tanto a fazer...
Por que não respondo?
Por que não insisto?

Deveria estar num outro tipo de nó, neste momento,
mas o enrosco das horas, os tique taques silenciosos que ecoam somente na minha memória,
me desesperam com a pergunta: o que vai fazer agora?
Eu, a nadar braçadas no fofo, me descabelo e nada argumento.

Descompasso desde o passo com que iniciei o ano vindouro,
dourado no céu de breu; um passo largo, que evitava abraços,
desejando que neste ritual houvesse uma labareda gigante,
batuques, corpos nus e oleosos a dançar eternamente,
saboreando a colheita das horas passadas...

E, vestida com quaisquer roupas, descabelada, destalhada, em ruína de guerra,
choraminguei timidamente, sozinha em meio aos abraços familiares.

Queria fugir.
Fugir da cabeça.
Fazer o impossível.
Fazer o inadmissível.
Silenciar a voz tresloucada que permeia cada finta do meu pensamento.
Não.
Silenciar tudo.
Curtir o vazio mais significativo da minha existência.

Um mundo sem pensamentos e sem palavras, só corpo completamente nu.
Por dois segundos estava bom, o suficiente pra pregar uma peça de tremer as bases da consciência...
e me fazer reagir da letargia em que estão todos os significados da minha existência.
Acho que essa é a definição da vida, enfim.

1.1.14

No relógio, três vezes o três me leva ao lugar
de doce expectativa, que filtra os amores do mundo
e os põe todos em meu vasto espaço vazio.
Vazo pela fresta e, um naco de tempo depois,
toda a ânsia se vai e eu permaneço...
calada, sofrendo, sentida, desprovida dos teus abraços,
da tua fala, do teu tempo...
como é difícil levar uma vida pra decifrar um desejo!
- se eu soubesse, teria evitado,
teria fechado meus ouvidos pr'aquele teu silvo que soou por dias,
ecoando incansavelmente dentro da minha existência incompleta.
Naquele instante eu te amei pela primeira vez e nem desconfiei.
Se houvesse evitado botar reparo em como teus olhos eram uma armadilha pra minha curiosidade...
se..
se acaso nunca tivéssemos nos encontrado... nunca...
esse momento seco e amargo, moído manualmente no pilão das horas,
jamais, jamais me visitaria.
Beiro novamente o sentimento inteiro do amor,
sou aquela interpretação urgente,
desesperada por delicados contornos mas, vou te dizer,
necessitada igualmente do desalinho: eu te odeio com a mesma intensidade com que te amo.
Odiar desconstrói muros que modelam, mas que limitam algo que é um colosso.
Muros deveriam ter a mesma responsabilidade moral com que são criadas as obras naturais da existência;
mas sempre me vejo cercada e sem saída após vislumbrar o cuidadoso trabalho que construí com tanta persistência e gozo...
cercada, porque a obra inútil parece linda ao mesmo tempo em que se mostra incólume e intocável.
Não gosto do que é intocável.
Eu gosto do toque sobre minha pele, o toque que revela sensações e concretiza ideias intocáveis no momento em que são apenas admiradas.
E eu abro meu coração para te dizer que não gosto do que é intocável porque eu mesma me mantive nessa forma durante quase toda a minha vida... até agora.
Agora experimentei e aceitei que tudo necessita de seu próprio espaço, tempo... para tudo, para durar, para fenecer...
construir muros, todavia, é algo do qual não abdicarei, mas que se tornou uma de minhas habilidades mais especiais neste momento.
Construo, observo, desconstruo, deixo, retomo, faço todas as manobras da vida sem sofrer mais do que exigem de mim...
Mas o ódio se tornou uma ferramenta interessante e absolutamente necessária em minhas mãos...
porque agora só faz sentido e só é genuíno o amor quando o ódio lhe segue de perto.
Odiar tem sido uma maneira de amar que venho compreendendo e necessitando.
Eu te amo completamente, e acho que isso é o amor mais honesto e sincero que poderei te oferecer.
E belo.
Porque não há, igualmente, o belo sem o grotesco.

30.12.13

Perigo

A bailarina anda sobre o fio fino,
dobrando seu centro pra frente, pra trás,
beirando a queda iminente.
A bailarina dá um giro inseguro,
olha pro fio do começo e treme,
treme das canelas às mãos, que seguram uma xícara de porcelana, frágil.
A bailarina salta certeira,
dobra os joelhos para amparar os quadris, direita, reta, classuda...
endireita-se e, de repente, não sente mais medo.
A bailarina se venda,
solta os movimentos,
sem saber onde vai chegar: ao chão, ao fim, enfim...
A bailarina segue, com dedos espertos,
dançando o fio, como uma extensão de si...
sabe bailar.
E
Oi
Mas
Desce
Desce mais
Rola pelo monte
Salga a linha experiente
Brilha, revivendo o mundo,
Cai no abismo, dor nenhuma
Abstrai, suspende, sublima
Pende mais aquela uma
pequena, menina, vai
deixa ver descer
ali no caminho
na perfeita
direção
e

se

me
sobe
um só
anseio de
segurar-lhe
a mão
não
é
é
de
que
o que
me causa
espanto

Hoje foi um dia de cheiros.

Cheiro da minha roupa lavada,
do óleo sobre o corpo limpo,
do chocolate à véspera do maior encontro que ansiava para este final de ano tão repleto...
Cheiro de laranja, canela, índia no meu quarto,
de abraço carinhoso e fraterno, num colo derretido pelo sol a pino...
Cheiro de café moído na hora,
com um toque de doação, entrega, amor,
e o suave sorvete macio, que dançava no fundo do copo com a colher.
Cheiro de vinho seco argentino,
não dos melhores, como disse,
mas que pra mim era mais que o suficiente...
cheiro de café de novo, com brownie.
Depois o cheiro da tua fumaça
e do teu perfume...
indo pra cama junto comigo.
Tem um sabor de não sei bem o quê...
acho que de coisas que ficam no indizível,
intraduzível,
insolúvel...
mas que ficam num canto aconchegado da alma,
quentinho e caseiro,
de cheiro de lar, pra onde sempre volto...
segura, inteira... não sei.
Acho sempre que te amo, mesmo quando te odeio com todas as minhas forças.

24.12.13

Este ano foi um dos mais incríveis da minha vida.
Um ano de muitos erros - principalmente por eu me permitir cometer estes erros, sem me punir depois -, um ano de mudanças - e, novamente, por eu me permitir curtir novas e diferentes chances que surgiam diante de mim... considerando que muitas delas envolviam o verdadeiro trabalho de escuta, de entrega e de tolerância - um ano de muito crescimento e amadurecimento, um ano de paixões avassaladoras e que me fizeram confortável, não um bicho recuado - por mais que nenhuma tenha se concretizado como era meu desejo.
Perder o medo de me machucar, de tentar, de seguir com o que desejo mais sinceramente, me permitiu ultrapassar a barreira gigante que me separava do mundo e de mim.
Este blog continua vivo, como eu.

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Então disse pra uma amiga "gosto de ler depois de algum tempo o que escrevo no meu blog, porque fica muito claro os temas que vou investigando... houve uma época em que falei de florestas, depois de mar, de bruxas, plantas..." e agora acho que estou entrando na culinária.
Este tema é muito, muito, muito significativo, acho que, dentre todos que consigo identificar, o mais.
Escrevi estes quatro textos a seguir com a ideia de que cada um representa uma unidade de experiência, mas que eles são um conjunto de coisas que devem ser digeridas juntas. (pra mim é bastante óbvio, mas não sei se fica claro pra quem lê, que não seja eu) (e essa, honestamente, ainda não é minha preocupação).
Bem, o mais engraçado é que nada foi calculado... fui escrevendo e o tema foi aparecendo... e, vejam só... nada também foi elaborado no sentido de escrita... quero dizer, é escrita espontânea, com correções posteriores acerca de pontuação/repetições quando usadas para retomar assuntos perdidos, durante a escrita, não para compor o texto/algumas trocas de palavras interessantes (especialmente nas repetições)... só.
Enfim:
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1. Do que nunca existiu, falando em experiências culinárias

Toda minha vida busquei um sentido para alguns encontros e sofrimentos advindos de expectativas que criava sobre eles. Eu não estava pronta.
Sério que não basta apenas desejar.
Pra amar além da responsabilidade consigo mesmo e do egoísmo, é preciso amar de verdade a si mesmo.
Então, antes de hoje, considero que tive poucos amores na vida, porque havia pouca licença para eles em meu espaço, que ainda nem era meu.
Logo, a partir de agora, esqueço o frango xadrez, esqueço o cheiro de café da manhã que vinham dos olhos azuis, esqueço da imaturidade de sugestões de cafés em hotéis pelo mundo, esqueço da limonada amarga e indigesta que bebi enquanto tentava me esquecer de um porre de vinho... pra mim, tais coisas nunca existiram. Só contarei a partir dos três copos de cerveja que me fizeram falar com ele, do café gelado que me fez entender que não há como me desvencilhar dele e da caipirinha que ele me trouxe enquanto eu tomava um banho de sol com o nó desfeito do biquíni.

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2. Sessão de descarrego

Despeço-me tranquilamente daquelas mãos que percorriam minha alma, totalmente entregue e à espera do arrebatamento. Despeço-me, não por não falar, mas por acreditar que todas as histórias têm um tempo de durar e, depois...
Faço isso tão madura que tenho a certeza de que finalmente a mulher que estava amordaçada no fundo do mar veio à tona, respirou e se libertou.
E minha gratidão por ajudar-me nessa percepção é desmedida. Eu o amei por isso, o amei por sua disponibilidade e o amei por sua língua, que me dizia de sonhos e ideias que me assustaram, mas que me transportaram pra um lugar importante na sua vida... por um instante frágil, doce e quase que irreal.
Só que não posso lidar mais com insegurança... insegurança que você me põe quando nos entrelaçamos e logo depois nos separamos como completos estranhos que sequer sabem da existência um do outro. E daquela outra, a pior, que me fez passar quando estive completa ao seu lado, mas me ignorou quase por completo... um pouco antes de despedir-se, sem, ao menos, um beijo carinhoso nos meus lábios...
Confesso que senti que meu coração se quebraria novamente, se espatifaria, e seria dolorosamente insuportável atribuir à mulher essa culpa. Pensei por muitos dias, entendi a minha dor e meu coração, por fim, não se quebrou... mas minha vontade foi de nunca mais ouvi-lo. Mesmo assim, sou paciente. Pacientemente esperei por quaisquer coisas que quisesse me dizer, que continuassem ou deletassem essa experiência das minhas recém-nascidas expectativas...
Recebi o silêncio.
A princípio doeu, doeu um pouco, tipo ferrão de formiga saúva no dedinho do pé.
Parei mais uma vez pra entender a minha dor... entendi o orgulho, entendi a imaturidade, entendi as expectativas que jamais deveriam ter existido, porque não devemos nada entre nós, entendi tudo o que me pertencia para poder tomar esta decisão de me despedir...
É que venho carregada de outras histórias, também, que sempre revivem, me rondam.
Depois que você partiu enchi novamente a taça de vinho, aquele vinho antigo, que fica mais saboroso com o tempo, e percebi que é possível beber, ficar tonta, mas não perder o controle e, muito menos, perder-me de mim mesma... eu me encontrei de verdade e agora não largo mais de mim.
Além disso, ainda tenho espaço muito amplo pra carregar novas doses... que podem não ser minha gana e o que procuro, mas, com certeza, são do que não pretendo mais desviar.

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3. Cozinhando o galo

Sempre gostei de ver mãos fortes num trabalho artístico, daqueles que alimentam a existência.
Não havia avental, não havia relações socialmente construídas por quaisquer ismos... havia um homem e uma mulher juntos na mais simples e sincera equação de amor.
Pegou o garfo e, paciente, reduziu a massa a um farelo milimetricamente calculado, como obra de engenharia. Sem capacete de proteção, me lancei ao pote, derretendo o queijo com as mãos... sorri e voltei a respirar.
Misturou a salsa à dança do garfo, azeitou meu olhar e depois me comeu com sal. O queijo em minhas mãos eram insuficientes... suspirei e continuei a montar o prato feito a várias mãos...

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4. Do vinho ao café gelado

Então, depois de muito tempo tentando decifrar os caminhos que me levaram a cozinhar, subitamente compreendi que fui levada a desejar aquela taça de vinho por um sabor acre de infância que me fazia mais completa e segura.
Virei a jarra, seca, de vinho tinto suave sobre minha taça, ainda tentando entender pra onde isso queria me levar. Depois virei cinco vezes a taça em meus lábios.
Tentei alcançar sua perna e ultrapassar um limite que insiste em me engradar. Fez bem perceber nossos joelhos se beijando, mesmo que não visse mais nada com clareza que me é típica... os olhos turvos me levaram pra um lugar paralelo, d'onde pude observar o mundo com um entendimento sem pudores, sem reservas, sem julgamentos...
Sorri internamente, porque percebi que aquilo não me feria mais. Era bom, pela primeira vez, não almejar nada além do momento, criando uma quimera sobre simples sinais amigáveis...
Então me levou em casa, saltou pela portado carro tão rápido quanto clamei por seu abraço e isso me deixou sinceramente feliz, e o suficiente.
Compreendi muita coisa... especialmente que era hora de mudar a bebida quente, alucinógena, por uma bebida mais alegre e doce; que é como quero guardar a recordação de nossos encontros pela vida... esperando que seja longa o suficiente pra mais alguns presentes como este.

15.12.13

Ninguém

Transpassei os sons num laço íntimo, sereno, dum crescente anseio. Respirei, suspirei, e o momento era eterno, desses que não se apaga nunca mais mesmo.

E que seja esse o maior problema hoje, eu desejo.

Porque a necessidade do afago, aquela que não sei porque sinto ainda, vem me corroendo e me levando com a maré...

Ninguém deveria ter um coração quebrado tantas e tantas vezes...

Sei que me quebro porque me entrego sem dó de mim. Um presente fino e delicado, dedicado integralmente. Acho sinceramente que é porque tenho necessidade de acreditar em alguma coisa, mesmo que ela não exista.

Nenhuma pessoa deveria se sentir tão insegura.

Não espero mais na janela da vida. O fato é esse. Meus olhos percorrem a imensidão da vida, na gana de beber todo o mar. E não queria mais esperar por aquele nó. Todavia... é uma necessidade genuína e biológica, das que não tem muita conversa até saciar.

Com o corpo não se conversa com a cabeça.

Passei os dias tentando acalmar a fera, ludibriando vergonhosamente com pequenos presentes diários, públicos, não públicos... mas estou exaurida. Não sei mais o que alimentar desse anseio...

Olho insistentemente para o maldito sinal, que não chega.

E daí...?

Não sei.

Ando perdida no meio de tanta imensidão. Mas já decidi muitas possibilidades. Decisões eram partos, hoje são o que devem ser: responsabilidades assumidas sem choramingar. Então decidi... decidi que não é isso que quero e que busco.

Ninguém busca tanta ausência.

Ninguém busca por regalos de misericórdia.

Ninguém.

E como lidar com esses pensamentos cretinos que visam confundir a parte que ainda tem esperanças e anseia por milagres? Não quero! Não quero isso também!

O que quero é o acesso simples, a disponibilidade, a maturidade.

E o que sustenta a minha vida tem virado num sentimento que desconhecia, mas que agora está completo. Esse foi um presente verdadeiro e necessário. Hoje sinto o amor bem mais inteiro quando sinto o ódio.

Não, não é intencional tanta aspereza. Também não é caso de dar dó. Também não é preciso que ninguém conserte o ódio. O ódio não precisa ser consertado. Ele precisa existir.

Eu amo e odeio e me sinto mais completa.

Não pollyanno mais a minha vida, porque me fartei de me privar das coisas completas. E ainda bem que só devastei minha infância ao não ler a sequência - moça. Queria mesmo que fosse culpa, influência, do livro, mas a culpa é apenas minha. De ignorar as coisas completas e escolher só a parte mais macia - que nem sempre é a mais saborosa.

Ainda bem que hoje entendo e sinto prazer sincero com o que é mais grotesco.

Ainda assim, ninguém deveria sentir só insegurança.

Ainda escrevo, mas a vontade era de dizer isso ao ouvido atento, bem pausado, que é pra certificar de que a mensagem seja clara e não prejudique o entendimento. Escrevo, mas anseio loucamente...

Alguém?


[Isso foi só uma tentativa de traduzir uma espera angustiante. Nada além disso.
O bom da minha vida, pra eu ser livre, é assumir responsabilidades acerca de minhas próprias escolhas. Nem sempre é fácil, porque as coisas são inteiras quando existem - boas e ruins. É um eterno exercício de amor comigo mesma e com o mundo, acredito. E não tenho problemas com coisas inteiras também, pelo contrário, pra mim, são absolutamente necessárias. Não polliannizar a vida é saber lidar com ela como acho que deva ser.

Não é transtorno algum, é uma necessidade... é assim que venho resolvendo a minha vida, é assim que tem doído muito menos, é assim que tem sido tão esclarecedor...
Também não é resolução de final de ano e/ou promessa pro seguinte, embora soe como.
Logo, toda essa angústia, todo esse ódio, toda essa ausência que sinto existe porque eu ajudei a esculpir e, quando entendo isso, é libertador.
(Agora falta levar isso pro trânsito, ahahahhaha)
É isso: assumir minha posição no mundo, inteira, acho mesmo que é isso que é ser livre de verdade: ter autonomia para escolher, arcar com as responsabilidades envolvidas nesse processo.]

8.12.13

Falando sobre estágios do desejo

Andei meio sumida de verbalizar aqui, mas realmente passei sem tempo para escrever. É a primeira vez que isso acontece. De eu não ter tempo pra desvendar/dissecar/entender o que está acontecendo comigo, querendo viajar para este processo, mas não tendo um naco de sossego comigo mesma... andei, nesses últimos meses, saçaricando bem pra fora de mim. Eis que descubro o tesouro: eu. Não, não estou sendo egocêntrica, só quero dizer que fiquei tão afastada de mim, que tive um tempo suficientemente bom para menos ansiedade, menos exigências e, consequentemente, menos sofrimento com minha existência. Quando vi, dei um salto grande no ar, mudei de lugar, cresci e finalmente posso dizer que uma mudança que tanto ansiava me trouxe um belo presente... de mim para mim.
Eu me permiti embarcar pr'aquela viagem em alto-mar, da qual disse noutro post mais antigo... e descobri essa singela passagem, mais adiante neste post; uma passagem que desaguei no facebook - que se tornou um local propício, pra este momento.
Como a proposta deste blog ainda é muito importante pra mim, achei incrível notar minha escrita não como um produto, mas realmente como um processo e me debruçar numa auto-análise.
A primeira coisa que notei, que não me custou muito tempo/trabalho, foi o tema escolhido... ultimamente tenho escrito muito sobre "desejo", "desejar". Lembro que isso já vem acontecendo há algum tempo... mas, o que torna este interessante de se notar é que eu nunca consegui realmente falar ou ser totalmente honesta com esse sentimento/sensação do corpo. Talvez seja a mudança por qual venho passando, me pondo totalmente disposta a vivenciar algo do qual nunca me permiti antes... por medo, por medo de tantas coisas... me cerrei num local, resguardada, sofrendo com ideias, com auto-estima capenga, com desconfiança, me protegendo de não sei bem o quê... acho que de meus próprios julgamentos. Ninguém tem culpa desse colosso doloroso que venho perrengando desde a minha adolescência... sendo objetiva: esse desejo que move a gente instintivamente, nesse grau e constância e urgência... é a primeira vez que sinto. Antes, eu não tive experiências dolorosas em relacionamentos porque nunca me permiti me envolver em um. Depois, fiquei presa num amor que até hoje não entendo e me sentia impotente de satisfazer qualquer necessidade minha por acreditar que era absolutamente injusto com o outro... nossa! Eu me agredi tanto, fui tão cruel!
Mas neste ano me libertei da prisão. Começou lento, no final do ano passado, depois que fui para as aulas de teatro, alguma coisa me impulsionou para enfrentar a Loraine cruel e repressora e daí... daí eu cresci. Cresci e virei uma mulher completa. Uma mulher capaz de se entregar como mulher, mesmo que ainda não tenha concretizado nada. Eu me descobri completamente entregue ao desejo.
Então tudo passou a acontecer... e quando passou a acontecer eu achei que deveria registrar...
O que acontece além do tema é a própria mudança da escrita. Minha capacidade de recriar uma experiência muito concreta e real numa imagem poética parece estar tão mais fina, tão mais delicada, tão mais exata e preocupada... mesmo que eu ainda tenha muito pouco daquele caráter de escrever como escreve um engenheiro, às vezes escolhendo melhor as imagens ou as palavras ou metrificando ou sonorizando..., minha escrita progrediu prum nível de abstração e pra um texto menos vadio. Não sei se me explico.
Como ainda escrevo com a sensação, o debruçar para compreender o que eu mesma queria dizer foi mais nesse sentido... peguei os trechos que soltei e reli e reli e então a doce surpresa: eu fiz todo o caminho físico da sensação e ainda fui capaz de conversar com as ideias que me aconteceram diante dessas novas experiências... como foi sentir essa sensação e o que isso me causou no pensamento... pareço louca, mas é exatamente isso que quero dizer: consegui, numa imagem poética, um nível de abstração textual significativo que fala de corpo físico, sensação e pensamento de uma experiência concreta.
Então, aqui estão os polêmicos... entre colchetes estão um pouco da minha análise:


[1- A chegada - aqui estava procurando identificar/precisar a sensação que estava acontecendo em mim - até então... novidade // o que aconteceu de verdade: eu me permiti vivenciar um momento diferente e, depois de vislumbrá-lo, passei a semana toda ansiando para que acontecesse]


No teto, a pequena rachadura escoa única gota,
O mar denso, cainãocai, numa angústia sem fim,
Tormento que transborda uma existência sensível, mas completa.
Eu... torcendo: pinga! pinga! pinga!
E ela, como bons ouvidos e se encorajasse, se desprende numa liberdade que deixa o ventre berrando, ansiando por concretizar a queda...
Eu... torcendo: vai! cai! cai logo!
(Não aguento!)


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[2- A espera e um coração partido - neste ponto, quis falar sobre como era difícil ansiar tanto por algo que não aconteceu no momento da minha ansiedade // de verdade, esperei por toques que não chegaram, me senti rejeitada, enganada, chateada... minha vontade foi de desabar... mas daí... daí vem a parte linda: essa era a Loraine de antes. Agora, a Loraine é uma mulher adulta e não vê mais as coisas assim... quando realizei isso, percebi que estava sendo injusta e burra. Revi a situação, refleti e - mesmo que houvesse acontecido isso - percebi que isso não é problema para mim. Isso não é o suficiente para abalar a mulher que me tornei... isso não muda os fatos anteriores... ]

"Anseio I" ou "Procurando o desejo no cotidiano"


Espia o pão fresco e partido. Dele sobe uma leve brisa, quente feito o diabo, qualquer passada de manteiga se desfaz pelos poros, enormes fissuras de canto a canto.
Não houvesse tanto significado, seria um simples pão com manteiga.


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[3- A partida, a constatação e a entrega - o mais lindo, total ato de amor. Essa é a escrita mais precisa que consegui pra mostrar um quadro do desejo, o que aconteceu no momento, minha expectativa, minha entrega, enfim...]


"Anseio II" ou "Dos fios de ar quente que escorrem pro mundo quando alguma coisa acontece"

Apago a vela e vejo o vento levar
a fumaça macia que dança no ar.
(Um fio delicado, tênue, beirando a inexistência)
Pois que o que fica, depois, na querência,
é só meu olhar, sereno, totalmente entregue ao momento.

17.11.13

A onda que andava mansa, manca, bamba,
agora é ressaca, tripudiando durante a tarde inteira.
Sem um instante de calmaria,
me afoga com gotas de sal, que escorrem por todo o meu corpo desavisado.
Não penso em nada.
Felicidade é não pensar além da própria tormenta.
Fosse um náufrago a partilhar esta desventura,
talvez um esforço mútuo para driblar o desconforto... talvez, talvez...
Cruzo as pernas, me viro, nada é solução,
o frenesi da ressaca percorre minhas veias, se aloja em meu centro e me conduz ininterruptamente.
Agora sou mar, mareada, maresia...
Como faz para preencher toda essa ânsia vazia, que dança frenética em pleno crepúsculo?
Seria meu corpo um vórtice para o além?
Seria meu estado de êxtase uma espécie pecaminosa de ser?
Sinto a onda lamber o que me alcança, deixo a espuma escorrer entre minhas pernas,
sinto o cheiro azedo do mar, abro os olhos e tudo é imensidão.
Onde estou?
É um convite?
Se for um convite, estou pronta. Absolutamente pronta.
Deixei a garotinha na orla, em segurança, mas ela não precisa fazer essa viagem para tão longe... ela pode ficar.
Vou me afastando, contando o adeus enquanto olho para seus olhos serenos. Ela sorri com o corpo inteiro e diz com os olhos que é hora de crescer.
A onda me engole e adentro num pequeno espaço onde sei o que devo buscar.
Mas quando desperto pro mundo, me perco e não sei mais nada.
Espero, no balanço da vida, sozinha, enfiando os pés n'areia, com os cabelos na cara, olhando pro infinito.
Quem vem lá?
Não vem ninguém.
Quando meus tornozelos sentem-se no berço macio, sinto que não devo ficar parada no mesmo lugar
Então caminho.
Vou indo, puxada pelos cavalos marinhos de espuma, até dançar sem chão.
Viro estrela em alto-mar, despreparada, em caminho certo de perigos.
Acho que não ligo.
A menina ficou n'areia da orla...
Acho que não me preocupo mais.
A estrela boiando no oceano, banhada de sol e de sal, espera...
Toco meu ventre quente e sinto sua reverberação, como ondas mansas, mas cheias de vontade em tocar o céu. Boiando no macio, minhas palavras vão seguindo o fio que segue para longe. Mergulho e levo minha face para dentro das plumas, que às vezes me espetam e se prendem em meus cabelos, talvez sonham em conhecer o mundo... não durmo. Penso. Não, sinto. Sinto o calor percorrer meu corpo, sinto uma necessidade que não explico. Não durmo.
Levo um de meus joelhos para a altura do quadril e sinto um arrepio invadindo meu eixo. Acomodo confortavelmente os membros, depois dos espasmos, mas não é o suficiente para acalmar o corpo. Troco de joelhos e... de novo. Suo. Doi. Sofro de ausência. Desejo.
Respiro forte e com toda a intensidade para encher os pulmões com o volume máximo de ar, que, em seguida, solto bem vagarosamente. Isso ajuda a pensar. Penso. Não é possível.
Busco nas palavras um refúgio silencioso para a ânsia do corpo. Mais um paradoxo para a coleção que venho montando há anos.
Neste instante, paro pra escrever:
Vazio. Branco, riscado, porque é vermelho. Ausência. Querer, de um querer necessidade. Resfôlego. Desfôlego.
Palavras e palavras que nunca traduzem.
Rolo, incansável, vezes olho pro céu, vezes mergulho no macio... essa madrugada é interminável.
Cruzo, descruzo as pernas, tentando, sem sucesso, resolver algum desconforto... quatro horas.
Relatórios. Pensar em trabalho ajuda.
Preciso de um tempo para me concentrar no novo pensamento, não é fácil. A respiração ajuda: pulmões transbordando esvaziam-se em pingos. Agora vai.
Durmo.
Então aquele deslizar da palma da sua mão em minhas coxas fez um mundo de espasmos dançar no meu ventre. Segurei firme, sustentei o seu olhar e sorri. Então mergulhou seus lábios no meu pescoço, e toda a minha fragilidade se pôs à mostra: me vi enlaçada junto ao seu corpo, implorando por mais e mais... mas respirei fundo e me afastei. Duplamente errado e sem sentido; a brisa gelada me tomou e eu fui tomar o sol da calçada, do outro lado da rua. Não vou ser hipócrita de dizer que acabou aí. Não. Continuei olhando, pensando, desejando. Vi aquele sinal esperto, indicando que tem responsabilidade com outra pessoa. Porra, aquilo me colocou de volta pro lugar de onde eu havia conseguido escapar há tão pouco tempo! Então você voltou a se sentar ao meu lado, encostou tua perna na minha e... ponto.
Hoje, hoje foi um dia de folga do mundo. Deitei no sofá e, de repente, meu pensamento o encontrou. Nunca vou conseguir entender com palavras o que só o corpo é capaz de contar. Sei apenas que o corpo é muito, muito, muito honesto com o que sente. Bem como é fiel o suficiente ao juízo. E me pergunto por que é que, com tantas pessoas no mundo, eu sempre acabo me encantando por colossos de dúvidas e de tantas outras coisas que me fazem a mulher mais sozinha, medrosa e chateada da minha existência... nenhuma mulher, pessoa, deveria ser assim.
Nenhum amor deveria ser assim.
Ou é, e todo mundo que sente diz que é aquilo que acalma, que dá segurança e o escambau?
Já me perguntaram o que é que tanto espero pra me comprometer; não canso de confessar que espero por um amor que me tome, me transborde e me faça sentir minha pele um braseiro, meu ar insuficiente e meu desejo tão urgente que chega a doer... mas vou acrescentar um negocinho nessa lista básica: meu amor precisa ser disponível pra mim.

12.11.13

Lá vem o poema

Segura das formas que habito,
vazo de mim pra uma imensidão de significados
que amainam e intensificam a figura que existo.
Nesses pulos incertos que arrisco,
num hálito arisco afasto quaisquer modos
de outras figuras, de outras existências, de formas outras que,
na dúvida se apenas consumo, abaporizo ou me desnudo,
me sirvo num prato fresco de sururus apimentados.
E o engulo qual esfinge, mas na imensidão interna, inerte, eterna,
singularizo e personalizo o que finjo que entendo;
do resto, me livro e digo que não presta.
Mas a verdade é que me perco, tanta coisa pra saber...
A verdade é que não sei e me sei nula... mula.
Que segura nas ancas um arreio, dos mais potentes.
Não doa, não goza, não mente.
Não sente.
Luto por uma golfada serena, madruguenta, que desperte essa feroz égua,
que cavalga e sorve cada salto pelo espaço.
Que entende sua presença.
Que domina seus galopes.
Que manda em sua vagina.
Que é capaz de parir o universo que sonha.

23.9.13

Sempre afirmo que desisti daquele amor que me consome, daí descubro que fui eficientemente incompetente, porque não consigo me desfazer de um micro pedaço que o reconstrói cada vez mais bonito e seguro. Pena. Pena, pois toda essa riqueza existe somente em mim. Logo, nem consigo acreditar na paradoxal fragilidade à qual me submeto sempre que o bonito me seduz. Me desfaço numa rajada de nacos, espatifados como um velho e cansado espelho que se despede da vida ao se desprender de um pedestal qualquer. Essa sou eu, mendiga, febril, desvairada, sem freios na gana de o abraçar até que meus braços não sejam mais meus e se despreguem de mim, largando meu corpo mudo e satisfeito, talvez... não bastasse esse colo, meu desejo é, também, a ânsia descomedida de o ter em todo canto do que eu existo e exalo... é uma sensação de que tudo, toda a possibilidade, é insuficiente... e agora estou desaguando um mar pelos meus olhos, me desmanchando numa querência sem endereço... naquela acepção da ânsia que pressupõe o enjoo, porque o deixo livre e me olha com indiferença, me fala sem sabor e me toca com frieza... e toda a minha alma esperava pelo seu retorno, crendo que estaria mais certo e especialmente mais leve... para brincar, para... sei lá... deixar vir o que quer que seja desse novo encontro que planejo com tanto esmero... por que tão distante, como se houvesse ficado algures, na empreitada de encontrar a si mesmo noutras terras distantes?