pego a folha rabiscada, alisada, craquelada pelo tempo e pelas mãos que um dia a tornaram uma pequena bola, com um buraco negro dentro, de tanto espremer, apertar, fincar no próprio peito até lacerar e demarcar a área onde deveria ser plantada, quem sabe nasce um pequeno arbusto, de palavras sem odores, cafés insípidos, abraços sem calor... quem sabe não cresce a erva daninha que mata tudo, e enterra no fundo da alma um sentido que nessa existência deveria ter passado só enterrado, sem respiro, no claustro, sem vida, sem luz, sem ar, sem nada. É o tamanho da folha agora: pequena bola amassada, num punho cerrado que quase sangra a palma desavisada... mas não por não querer se desfazer, e sim pra ter certeza de que ali está se criando o buraco negro.
A bola sobre e desce no ar sem movimento, num paradoxo a se pensar... e a mira é para o cesto. Longe, antes impossível, agora já bem certo no lugar. Era assim, já não é mais, as coisas crescem e mudam de importância.
E então, transpassa silenciosamente, quase numa trilha rarefeita, querendo voltar de tanto atrito... não volta, não! Não vai ter mão pra te apanhar!
Cai no cesto e fim: vira-se a página.