8.12.13

Falando sobre estágios do desejo

Andei meio sumida de verbalizar aqui, mas realmente passei sem tempo para escrever. É a primeira vez que isso acontece. De eu não ter tempo pra desvendar/dissecar/entender o que está acontecendo comigo, querendo viajar para este processo, mas não tendo um naco de sossego comigo mesma... andei, nesses últimos meses, saçaricando bem pra fora de mim. Eis que descubro o tesouro: eu. Não, não estou sendo egocêntrica, só quero dizer que fiquei tão afastada de mim, que tive um tempo suficientemente bom para menos ansiedade, menos exigências e, consequentemente, menos sofrimento com minha existência. Quando vi, dei um salto grande no ar, mudei de lugar, cresci e finalmente posso dizer que uma mudança que tanto ansiava me trouxe um belo presente... de mim para mim.
Eu me permiti embarcar pr'aquela viagem em alto-mar, da qual disse noutro post mais antigo... e descobri essa singela passagem, mais adiante neste post; uma passagem que desaguei no facebook - que se tornou um local propício, pra este momento.
Como a proposta deste blog ainda é muito importante pra mim, achei incrível notar minha escrita não como um produto, mas realmente como um processo e me debruçar numa auto-análise.
A primeira coisa que notei, que não me custou muito tempo/trabalho, foi o tema escolhido... ultimamente tenho escrito muito sobre "desejo", "desejar". Lembro que isso já vem acontecendo há algum tempo... mas, o que torna este interessante de se notar é que eu nunca consegui realmente falar ou ser totalmente honesta com esse sentimento/sensação do corpo. Talvez seja a mudança por qual venho passando, me pondo totalmente disposta a vivenciar algo do qual nunca me permiti antes... por medo, por medo de tantas coisas... me cerrei num local, resguardada, sofrendo com ideias, com auto-estima capenga, com desconfiança, me protegendo de não sei bem o quê... acho que de meus próprios julgamentos. Ninguém tem culpa desse colosso doloroso que venho perrengando desde a minha adolescência... sendo objetiva: esse desejo que move a gente instintivamente, nesse grau e constância e urgência... é a primeira vez que sinto. Antes, eu não tive experiências dolorosas em relacionamentos porque nunca me permiti me envolver em um. Depois, fiquei presa num amor que até hoje não entendo e me sentia impotente de satisfazer qualquer necessidade minha por acreditar que era absolutamente injusto com o outro... nossa! Eu me agredi tanto, fui tão cruel!
Mas neste ano me libertei da prisão. Começou lento, no final do ano passado, depois que fui para as aulas de teatro, alguma coisa me impulsionou para enfrentar a Loraine cruel e repressora e daí... daí eu cresci. Cresci e virei uma mulher completa. Uma mulher capaz de se entregar como mulher, mesmo que ainda não tenha concretizado nada. Eu me descobri completamente entregue ao desejo.
Então tudo passou a acontecer... e quando passou a acontecer eu achei que deveria registrar...
O que acontece além do tema é a própria mudança da escrita. Minha capacidade de recriar uma experiência muito concreta e real numa imagem poética parece estar tão mais fina, tão mais delicada, tão mais exata e preocupada... mesmo que eu ainda tenha muito pouco daquele caráter de escrever como escreve um engenheiro, às vezes escolhendo melhor as imagens ou as palavras ou metrificando ou sonorizando..., minha escrita progrediu prum nível de abstração e pra um texto menos vadio. Não sei se me explico.
Como ainda escrevo com a sensação, o debruçar para compreender o que eu mesma queria dizer foi mais nesse sentido... peguei os trechos que soltei e reli e reli e então a doce surpresa: eu fiz todo o caminho físico da sensação e ainda fui capaz de conversar com as ideias que me aconteceram diante dessas novas experiências... como foi sentir essa sensação e o que isso me causou no pensamento... pareço louca, mas é exatamente isso que quero dizer: consegui, numa imagem poética, um nível de abstração textual significativo que fala de corpo físico, sensação e pensamento de uma experiência concreta.
Então, aqui estão os polêmicos... entre colchetes estão um pouco da minha análise:


[1- A chegada - aqui estava procurando identificar/precisar a sensação que estava acontecendo em mim - até então... novidade // o que aconteceu de verdade: eu me permiti vivenciar um momento diferente e, depois de vislumbrá-lo, passei a semana toda ansiando para que acontecesse]


No teto, a pequena rachadura escoa única gota,
O mar denso, cainãocai, numa angústia sem fim,
Tormento que transborda uma existência sensível, mas completa.
Eu... torcendo: pinga! pinga! pinga!
E ela, como bons ouvidos e se encorajasse, se desprende numa liberdade que deixa o ventre berrando, ansiando por concretizar a queda...
Eu... torcendo: vai! cai! cai logo!
(Não aguento!)


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[2- A espera e um coração partido - neste ponto, quis falar sobre como era difícil ansiar tanto por algo que não aconteceu no momento da minha ansiedade // de verdade, esperei por toques que não chegaram, me senti rejeitada, enganada, chateada... minha vontade foi de desabar... mas daí... daí vem a parte linda: essa era a Loraine de antes. Agora, a Loraine é uma mulher adulta e não vê mais as coisas assim... quando realizei isso, percebi que estava sendo injusta e burra. Revi a situação, refleti e - mesmo que houvesse acontecido isso - percebi que isso não é problema para mim. Isso não é o suficiente para abalar a mulher que me tornei... isso não muda os fatos anteriores... ]

"Anseio I" ou "Procurando o desejo no cotidiano"


Espia o pão fresco e partido. Dele sobe uma leve brisa, quente feito o diabo, qualquer passada de manteiga se desfaz pelos poros, enormes fissuras de canto a canto.
Não houvesse tanto significado, seria um simples pão com manteiga.


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[3- A partida, a constatação e a entrega - o mais lindo, total ato de amor. Essa é a escrita mais precisa que consegui pra mostrar um quadro do desejo, o que aconteceu no momento, minha expectativa, minha entrega, enfim...]


"Anseio II" ou "Dos fios de ar quente que escorrem pro mundo quando alguma coisa acontece"

Apago a vela e vejo o vento levar
a fumaça macia que dança no ar.
(Um fio delicado, tênue, beirando a inexistência)
Pois que o que fica, depois, na querência,
é só meu olhar, sereno, totalmente entregue ao momento.