15.12.13

Ninguém

Transpassei os sons num laço íntimo, sereno, dum crescente anseio. Respirei, suspirei, e o momento era eterno, desses que não se apaga nunca mais mesmo.

E que seja esse o maior problema hoje, eu desejo.

Porque a necessidade do afago, aquela que não sei porque sinto ainda, vem me corroendo e me levando com a maré...

Ninguém deveria ter um coração quebrado tantas e tantas vezes...

Sei que me quebro porque me entrego sem dó de mim. Um presente fino e delicado, dedicado integralmente. Acho sinceramente que é porque tenho necessidade de acreditar em alguma coisa, mesmo que ela não exista.

Nenhuma pessoa deveria se sentir tão insegura.

Não espero mais na janela da vida. O fato é esse. Meus olhos percorrem a imensidão da vida, na gana de beber todo o mar. E não queria mais esperar por aquele nó. Todavia... é uma necessidade genuína e biológica, das que não tem muita conversa até saciar.

Com o corpo não se conversa com a cabeça.

Passei os dias tentando acalmar a fera, ludibriando vergonhosamente com pequenos presentes diários, públicos, não públicos... mas estou exaurida. Não sei mais o que alimentar desse anseio...

Olho insistentemente para o maldito sinal, que não chega.

E daí...?

Não sei.

Ando perdida no meio de tanta imensidão. Mas já decidi muitas possibilidades. Decisões eram partos, hoje são o que devem ser: responsabilidades assumidas sem choramingar. Então decidi... decidi que não é isso que quero e que busco.

Ninguém busca tanta ausência.

Ninguém busca por regalos de misericórdia.

Ninguém.

E como lidar com esses pensamentos cretinos que visam confundir a parte que ainda tem esperanças e anseia por milagres? Não quero! Não quero isso também!

O que quero é o acesso simples, a disponibilidade, a maturidade.

E o que sustenta a minha vida tem virado num sentimento que desconhecia, mas que agora está completo. Esse foi um presente verdadeiro e necessário. Hoje sinto o amor bem mais inteiro quando sinto o ódio.

Não, não é intencional tanta aspereza. Também não é caso de dar dó. Também não é preciso que ninguém conserte o ódio. O ódio não precisa ser consertado. Ele precisa existir.

Eu amo e odeio e me sinto mais completa.

Não pollyanno mais a minha vida, porque me fartei de me privar das coisas completas. E ainda bem que só devastei minha infância ao não ler a sequência - moça. Queria mesmo que fosse culpa, influência, do livro, mas a culpa é apenas minha. De ignorar as coisas completas e escolher só a parte mais macia - que nem sempre é a mais saborosa.

Ainda bem que hoje entendo e sinto prazer sincero com o que é mais grotesco.

Ainda assim, ninguém deveria sentir só insegurança.

Ainda escrevo, mas a vontade era de dizer isso ao ouvido atento, bem pausado, que é pra certificar de que a mensagem seja clara e não prejudique o entendimento. Escrevo, mas anseio loucamente...

Alguém?


[Isso foi só uma tentativa de traduzir uma espera angustiante. Nada além disso.
O bom da minha vida, pra eu ser livre, é assumir responsabilidades acerca de minhas próprias escolhas. Nem sempre é fácil, porque as coisas são inteiras quando existem - boas e ruins. É um eterno exercício de amor comigo mesma e com o mundo, acredito. E não tenho problemas com coisas inteiras também, pelo contrário, pra mim, são absolutamente necessárias. Não polliannizar a vida é saber lidar com ela como acho que deva ser.

Não é transtorno algum, é uma necessidade... é assim que venho resolvendo a minha vida, é assim que tem doído muito menos, é assim que tem sido tão esclarecedor...
Também não é resolução de final de ano e/ou promessa pro seguinte, embora soe como.
Logo, toda essa angústia, todo esse ódio, toda essa ausência que sinto existe porque eu ajudei a esculpir e, quando entendo isso, é libertador.
(Agora falta levar isso pro trânsito, ahahahhaha)
É isso: assumir minha posição no mundo, inteira, acho mesmo que é isso que é ser livre de verdade: ter autonomia para escolher, arcar com as responsabilidades envolvidas nesse processo.]