Este ano foi um dos mais incríveis da minha vida.
Um ano de muitos erros - principalmente por eu me permitir cometer estes erros, sem me punir depois -, um ano de mudanças - e, novamente, por eu me permitir curtir novas e diferentes chances que surgiam diante de mim... considerando que muitas delas envolviam o verdadeiro trabalho de escuta, de entrega e de tolerância - um ano de muito crescimento e amadurecimento, um ano de paixões avassaladoras e que me fizeram confortável, não um bicho recuado - por mais que nenhuma tenha se concretizado como era meu desejo.
Perder o medo de me machucar, de tentar, de seguir com o que desejo mais sinceramente, me permitiu ultrapassar a barreira gigante que me separava do mundo e de mim.
Este blog continua vivo, como eu.
------------------------------------
Então disse pra uma amiga "gosto de ler depois de algum tempo o que escrevo no meu blog, porque fica muito claro os temas que vou investigando... houve uma época em que falei de florestas, depois de mar, de bruxas, plantas..." e agora acho que estou entrando na culinária.
Este tema é muito, muito, muito significativo, acho que, dentre todos que consigo identificar, o mais.
Escrevi estes quatro textos a seguir com a ideia de que cada um representa uma unidade de experiência, mas que eles são um conjunto de coisas que devem ser digeridas juntas. (pra mim é bastante óbvio, mas não sei se fica claro pra quem lê, que não seja eu) (e essa, honestamente, ainda não é minha preocupação).
Bem, o mais engraçado é que nada foi calculado... fui escrevendo e o tema foi aparecendo... e, vejam só... nada também foi elaborado no sentido de escrita... quero dizer, é escrita espontânea, com correções posteriores acerca de pontuação/repetições quando usadas para retomar assuntos perdidos, durante a escrita, não para compor o texto/algumas trocas de palavras interessantes (especialmente nas repetições)... só.
Enfim:
------------------------------------
1. Do que nunca existiu, falando em experiências culinárias
Toda minha vida busquei um sentido para alguns encontros e sofrimentos advindos de expectativas que criava sobre eles. Eu não estava pronta.
Sério que não basta apenas desejar.
Pra amar além da responsabilidade consigo mesmo e do egoísmo, é preciso amar de verdade a si mesmo.
Então, antes de hoje, considero que tive poucos amores na vida, porque havia pouca licença para eles em meu espaço, que ainda nem era meu.
Logo, a partir de agora, esqueço o frango xadrez, esqueço o cheiro de café da manhã que vinham dos olhos azuis, esqueço da imaturidade de sugestões de cafés em hotéis pelo mundo, esqueço da limonada amarga e indigesta que bebi enquanto tentava me esquecer de um porre de vinho... pra mim, tais coisas nunca existiram. Só contarei a partir dos três copos de cerveja que me fizeram falar com ele, do café gelado que me fez entender que não há como me desvencilhar dele e da caipirinha que ele me trouxe enquanto eu tomava um banho de sol com o nó desfeito do biquíni.
------------------------------------
2. Sessão de descarrego
Despeço-me tranquilamente daquelas mãos que percorriam minha alma, totalmente entregue e à espera do arrebatamento. Despeço-me, não por não falar, mas por acreditar que todas as histórias têm um tempo de durar e, depois...
Faço isso tão madura que tenho a certeza de que finalmente a mulher que estava amordaçada no fundo do mar veio à tona, respirou e se libertou.
E minha gratidão por ajudar-me nessa percepção é desmedida. Eu o amei por isso, o amei por sua disponibilidade e o amei por sua língua, que me dizia de sonhos e ideias que me assustaram, mas que me transportaram pra um lugar importante na sua vida... por um instante frágil, doce e quase que irreal.
Só que não posso lidar mais com insegurança... insegurança que você me põe quando nos entrelaçamos e logo depois nos separamos como completos estranhos que sequer sabem da existência um do outro. E daquela outra, a pior, que me fez passar quando estive completa ao seu lado, mas me ignorou quase por completo... um pouco antes de despedir-se, sem, ao menos, um beijo carinhoso nos meus lábios...
Confesso que senti que meu coração se quebraria novamente, se espatifaria, e seria dolorosamente insuportável atribuir à mulher essa culpa. Pensei por muitos dias, entendi a minha dor e meu coração, por fim, não se quebrou... mas minha vontade foi de nunca mais ouvi-lo. Mesmo assim, sou paciente. Pacientemente esperei por quaisquer coisas que quisesse me dizer, que continuassem ou deletassem essa experiência das minhas recém-nascidas expectativas...
Recebi o silêncio.
Recebi o silêncio.
A princípio doeu, doeu um pouco, tipo ferrão de formiga saúva no dedinho do pé.
Parei mais uma vez pra entender a minha dor... entendi o orgulho, entendi a imaturidade, entendi as expectativas que jamais deveriam ter existido, porque não devemos nada entre nós, entendi tudo o que me pertencia para poder tomar esta decisão de me despedir...
É que venho carregada de outras histórias, também, que sempre revivem, me rondam.
Depois que você partiu enchi novamente a taça de vinho, aquele vinho antigo, que fica mais saboroso com o tempo, e percebi que é possível beber, ficar tonta, mas não perder o controle e, muito menos, perder-me de mim mesma... eu me encontrei de verdade e agora não largo mais de mim.
Além disso, ainda tenho espaço muito amplo pra carregar novas doses... que podem não ser minha gana e o que procuro, mas, com certeza, são do que não pretendo mais desviar.
------------------------------------
3. Cozinhando o galo
Sempre gostei de ver mãos fortes num trabalho artístico, daqueles que alimentam a existência.
Não havia avental, não havia relações socialmente construídas por quaisquer ismos... havia um homem e uma mulher juntos na mais simples e sincera equação de amor.
Pegou o garfo e, paciente, reduziu a massa a um farelo milimetricamente calculado, como obra de engenharia. Sem capacete de proteção, me lancei ao pote, derretendo o queijo com as mãos... sorri e voltei a respirar.
Misturou a salsa à dança do garfo, azeitou meu olhar e depois me comeu com sal. O queijo em minhas mãos eram insuficientes... suspirei e continuei a montar o prato feito a várias mãos...
Misturou a salsa à dança do garfo, azeitou meu olhar e depois me comeu com sal. O queijo em minhas mãos eram insuficientes... suspirei e continuei a montar o prato feito a várias mãos...
------------------------------------
4. Do vinho ao café gelado
Então, depois de muito tempo tentando decifrar os caminhos que me levaram a cozinhar, subitamente compreendi que fui levada a desejar aquela taça de vinho por um sabor acre de infância que me fazia mais completa e segura.
Virei a jarra, seca, de vinho tinto suave sobre minha taça, ainda tentando entender pra onde isso queria me levar. Depois virei cinco vezes a taça em meus lábios.
Tentei alcançar sua perna e ultrapassar um limite que insiste em me engradar. Fez bem perceber nossos joelhos se beijando, mesmo que não visse mais nada com clareza que me é típica... os olhos turvos me levaram pra um lugar paralelo, d'onde pude observar o mundo com um entendimento sem pudores, sem reservas, sem julgamentos...
Sorri internamente, porque percebi que aquilo não me feria mais. Era bom, pela primeira vez, não almejar nada além do momento, criando uma quimera sobre simples sinais amigáveis...
Então me levou em casa, saltou pela portado carro tão rápido quanto clamei por seu abraço e isso me deixou sinceramente feliz, e o suficiente.
Compreendi muita coisa... especialmente que era hora de mudar a bebida quente, alucinógena, por uma bebida mais alegre e doce; que é como quero guardar a recordação de nossos encontros pela vida... esperando que seja longa o suficiente pra mais alguns presentes como este.