17.11.13

A onda que andava mansa, manca, bamba,
agora é ressaca, tripudiando durante a tarde inteira.
Sem um instante de calmaria,
me afoga com gotas de sal, que escorrem por todo o meu corpo desavisado.
Não penso em nada.
Felicidade é não pensar além da própria tormenta.
Fosse um náufrago a partilhar esta desventura,
talvez um esforço mútuo para driblar o desconforto... talvez, talvez...
Cruzo as pernas, me viro, nada é solução,
o frenesi da ressaca percorre minhas veias, se aloja em meu centro e me conduz ininterruptamente.
Agora sou mar, mareada, maresia...
Como faz para preencher toda essa ânsia vazia, que dança frenética em pleno crepúsculo?
Seria meu corpo um vórtice para o além?
Seria meu estado de êxtase uma espécie pecaminosa de ser?
Sinto a onda lamber o que me alcança, deixo a espuma escorrer entre minhas pernas,
sinto o cheiro azedo do mar, abro os olhos e tudo é imensidão.
Onde estou?
É um convite?
Se for um convite, estou pronta. Absolutamente pronta.
Deixei a garotinha na orla, em segurança, mas ela não precisa fazer essa viagem para tão longe... ela pode ficar.
Vou me afastando, contando o adeus enquanto olho para seus olhos serenos. Ela sorri com o corpo inteiro e diz com os olhos que é hora de crescer.
A onda me engole e adentro num pequeno espaço onde sei o que devo buscar.
Mas quando desperto pro mundo, me perco e não sei mais nada.
Espero, no balanço da vida, sozinha, enfiando os pés n'areia, com os cabelos na cara, olhando pro infinito.
Quem vem lá?
Não vem ninguém.
Quando meus tornozelos sentem-se no berço macio, sinto que não devo ficar parada no mesmo lugar
Então caminho.
Vou indo, puxada pelos cavalos marinhos de espuma, até dançar sem chão.
Viro estrela em alto-mar, despreparada, em caminho certo de perigos.
Acho que não ligo.
A menina ficou n'areia da orla...
Acho que não me preocupo mais.
A estrela boiando no oceano, banhada de sol e de sal, espera...