Toco meu ventre quente e sinto sua reverberação, como ondas mansas, mas cheias de vontade em tocar o céu. Boiando no macio, minhas palavras vão seguindo o fio que segue para longe. Mergulho e levo minha face para dentro das plumas, que às vezes me espetam e se prendem em meus cabelos, talvez sonham em conhecer o mundo... não durmo. Penso. Não, sinto. Sinto o calor percorrer meu corpo, sinto uma necessidade que não explico. Não durmo.
Levo um de meus joelhos para a altura do quadril e sinto um arrepio invadindo meu eixo. Acomodo confortavelmente os membros, depois dos espasmos, mas não é o suficiente para acalmar o corpo. Troco de joelhos e... de novo. Suo. Doi. Sofro de ausência. Desejo.
Respiro forte e com toda a intensidade para encher os pulmões com o volume máximo de ar, que, em seguida, solto bem vagarosamente. Isso ajuda a pensar. Penso. Não é possível.
Busco nas palavras um refúgio silencioso para a ânsia do corpo. Mais um paradoxo para a coleção que venho montando há anos.
Neste instante, paro pra escrever:
Vazio. Branco, riscado, porque é vermelho. Ausência. Querer, de um querer necessidade. Resfôlego. Desfôlego.
Palavras e palavras que nunca traduzem.
Rolo, incansável, vezes olho pro céu, vezes mergulho no macio... essa madrugada é interminável.
Cruzo, descruzo as pernas, tentando, sem sucesso, resolver algum desconforto... quatro horas.
Relatórios. Pensar em trabalho ajuda.
Preciso de um tempo para me concentrar no novo pensamento, não é fácil. A respiração ajuda: pulmões transbordando esvaziam-se em pingos. Agora vai.
Durmo.