14.7.14

Carta aberta


Há um tempo consideravelmente grande, pra esse sentimento, não escrevo sobre você.
Escrevo agora, porque me debrucei sobre este pensamento... e porque o vi... e porque eu disse, na sua cara, que não mandava recados sem remetente, pois gosto de ser muito clara com as pessoas com quem convivo quando preciso dizer algo a elas.
O fato é que nunca fui clara com você e muitas pessoas sabem o quanto venho escrevendo sem ao menos lhe mostrar - este foi o pensamento que me levou à questão que me faz escrever esta carta agora. Essa mentirinha me fez imaginar que, se eu precisasse lhe dizer o quanto eu o amei, eu teria lhe dito escancaradamente, hoje mesmo. E só essa certeza me deu um repouso pra minha alma: estou livre daquele amor. Livre, livre, livre. E esta foi a primeira palavra que disse assim que cheguei ao meu quarto e repassei o nosso encontro: livre.
Sim. Livre. E vou contar adiante como foi que descobri e como tenho tanta convicção de que agora estou sendo honesta inclusive comigo mesma.

Em primeiro lugar, não fiquei enciumada quando vi sua nova namorada. Em verdade, eu a achei linda e gostei muitíssimo de conhecê-la... e não acho que eu deva falar nada sobre sua escolha, porque não preciso dar nenhuma avaliação ou permissão para o relacionamento que você venha a estabelecer com qualquer pessoa. Nós conversamos, rimos juntas, e eu estava leve e adorando aquele momento e mais: fui absolutamente sincera com ela. Em tudo o que eu disse, em tudo o que eu fiz. Quando eu sorri para ela, sorri de verdade, quando a olhei, a olhei nos olhos e quando eu a abracei... não foi com nenhum outro sentimento além de "prazer em conhecê-la, gosto de você".
Então já saquei logo: não o amo mais daquele jeito, meu amigo.

Então eu poderia ter dito, olhando para todos e bem no fundo dos seus olhos, também: eu não pertenço a você.
Depois, a noite seguiu muito, muito mais leve para mim... realmente me diverti e não estava preocupada com o que acontecia comigo em sua presença... eu estava sendo com toda a minha força e vontade... eu. Sem culpas. E o pensamento de "sou a minha pior inimiga" logo se encontrou com outros olhares e sorrisos espertos do salão, que me diziam: "ei, podem te achar estranha, rir de você, mas você existe".
Então sorri de volta e mantive os olhares, sem medo. Quando eu poderia ser tão sincera ao agir assim, sendo tão fiel ao que sentia por você?
Se soubesse de tudo o que venho experimentando em meu corpo, em meus sentimentos, em minhas ideias... eu jamais poderia ter sustentado um olhar de outro sem ter em meu pensamento que era uma atitude leviana e injusta com todos: você, ele, eu. Eu nunca poderia ter desejado tanto os braços de outro sem me sentir culpada por achar que estou enganando o universo inteiro. Eu flertei. Flertei de verdade. Fui mulher de verdade.
Daí você me abraçou, quando cheguei e quando fui embora... e... foi um abraço. Um abraço delicioso de amigo querido que você ainda é... mas não um abraço como aquele que eu queria carregar comigo por dias... dormir com ele, cheirá-lo por quanto tempo que eu conseguisse, senti-lo ao extremo, desafiando toda a minha criatividade e sensibilidade.
Então eu cheguei em casa e senti o seu cheiro, demorei a identificá-lo por um instante... daí reconheci, sorri e... ele foi embora.
Por fim, fui ao meu quarto, me aprontar para dormir e... fim: Livre, eu disse.
Se quer saber, eu o amo, sim... mas o amo na medida certa. Como aquele cara que, não tem jeito, é especial na minha vida... mas eu não acho, agora, que seríamos felizes companheiros.
Não sei que clique na minha percepção foi esse... não sei se foi trabalho de amigos que me fizeram me enxergar e desejar muito mais que a sua espera perto de mim... não sei se foi porque despertei uma fera sedenta dentro do meu corpo e tenho ânsia de saciá-la o mais breve possível e, por isso, não quero esperar mais. Não sei se é porque seu amor por mim não me manteve onde eu estava antes... não sei o que foi... mas sei que...
Esse silêncio de palavras trazem sempre alguma importante mudança em quem estou, que em breve dissecarei de algum modo; mas agora tenho certo de que não serão mais palavras sobre você.
E o mais importante de tudo é que agora nem doeu.
Um grande abraço, meu querido amigo,