17.11.11

A Caverna - uma fábula moderna

O bicho andava lá dentro, preferindo esbarrar no chão e tropeçar nas paredes a saborear a vida escorrendo como mel que vaza dum enxame... ali, do lado de fora. Não sabia cores, nem cheiros, só tateava a pedra ruça e o deslizava no limo. Ele se sentia muito mais seguro e era o quanto mais que se embrenhava para o interior que o fazia mais forte. Logo esqueceu a luz e seus olhos se tornaram capazes de reconhecer a repentina junção entre chão e teto, entre o buraco e o chão e entre o abismo e o buraco.
Lá fora, as coisas aconteciam. Animais nasciam, morriam... suas vidas nos conformes do ciclo que deveriam seguir. Isto é, os animais viviam, depois que nasciam, até o dia em que precisavam morrer. Há que se entender que este 'viviam' advém da expressão verbal 'saborear o mel', e não da 'ser o mel'.
O bicho não gostava de mel, mas estava começando a ficar louco para provar. Já digo: quanto mais pra dentro da caverna, ficava mais fácil escutar os próprios pensamentos, e os pensamentos do bicho diziam que mel era a coisa mais sem gosto que havia e que ele não entendia como os animais podiam se lambuzar. Diziam também que ele é que era esperto por sequer olhar para o mel, entre todos os outros pensamentos bobos sobre o assunto, que cada vez mais tomava o espaço dos seus pensamentos. [Digo também que o bicho aprendera a gostar de ouvir a si mesmo e trabalhara por muito tempo num modo de compreender o quanto fosse possível do que pensava, é o suficiente, por enquanto?]
Nenhum animal poderia sentir falta do bicho, embora, talvez, pudesse ficar curioso sobre o bicho. Mas o bicho, com o tempo, se tornara uma lenda e quase mais nenhum animal acreditava que ele existia. Como poderia existir um ser que preferiria desbravar uma caverna a sentir a vida doce lhe passar todos os dias? Ninguém poderia entender como isso acontecia, na verdade, pois que era incomum demais.
O bicho, então, sedento, louco, resolveu voltar para encontrar o tal mel. Depois de muitas tentativas vãs para achar o caminho, tentou encontrar o mel lá dentro mesmo. E qual não foi a surpresa quando se descobriu sem paladar? Embora todos os sentidos houvessem se desenvolvido para se adaptar à caverna, todas as coisas lhe pareciam iguais no sabor. Frustrado, reparou numa fresta, por onde a luz tentava entrar a todo custo. Ansioso por experimentar algo de fora, foi espiar. A dor, da sensibilidade, o fez correr febrilmente de volta para onde estava quando decidiu voltar.
Alguns animais disseram ter ouvido um rugido, mas, como não entenderam o que ele queria dizer, voltaram sossegados para seus afazeres e logo se esqueceram do som por completo.
O bicho passou a sustentar em si a nova dor que descobrira: ansiar por sair ao mesmo tempo em que temia encontrar a saída da caverna.


[Não sou a favor de moral tão explícita, mas já que o texto é bastante óbvio, seria algo como: desafiar (?) a liberdade não é suficiente para ser livre. Credo, ruim demais, prefiro este: quem se esforça para compreender a si mesmo deixa de ser compreendido pelos outros. Fim. Texto sem correção.]