24.3.14

Adeus

Oro
pela hora,
nos dedos, o aro
que os carregam, ara!
Ara, mas que dó de mim...
ora por minh'alma definhando,
passando pelos aros da hora,
com gosto de metal na língua,
cruzada por fios que guardam o segredo
cosido há anos dentro do pote,
dentro do meu pensamento.
Oro pela hora, em que puxarei o fio,
e ele sairá a contragosto,
largando pequenos furos que os acolhiam alegremente...
não quero calar mais.
É que o aro nos dedos roliços
me levaram ao desejo de lavar o gosto de ferro, de níquel, não sei, qualquer metal que tenha me comprado o silêncio.
Não vejo a hora.
Lavar a cara com segredos me parece justo,
e me parece o certo,
e me parece um fim digno.
Depois, uma nova era:
Era uma vez... uma moça descosturada, com uma agulha prateada e um cavalo baio, de ouro.
Irada, cavalgava os ares sem fim,
respirando livre...
e desconfiada.
O que vinha lá no horizonte, na orla, no mar, na onda?
Não importa...
Arisca, vai voando no ar, denso de passado,
desfiando outro tanto de fios pelo caminho.