Estive no calmo olho da fera,
refletida num espelho selvagem,
bebendo à saúde de deuses antigos,
festejando entre seres mágicos e pequeninos,
com um frio escaldante pesando leve em meu seio,
quando ouvi sua voz.
Cresceu um tormento já dantes conhecido,
com três goles de cerveja me despi,
trouxe o mundo sob meu olhar para uma galeria de imagens sóbrias,
queria lhe dizer coisas mais profundas e mansas e breves e lindas,
mas seria preciso dizer que ainda sinto algo que renego.
Não quero.
Não quero mesmo.
Pelo menos era essa minha crença.
Mas a linha livre me trouxe sua voz.
Breve chegaram também seus braços.
Logo, eu estava completamente embebida, pingando seus gestos, suas palavras, seu rosto.
E sua notícia que, não devia, me encheu dum sopro morno,
como quem traz ar para quem se afoga.
Eu estava ali ao seu lado...
numa festa particular, íntima, privada e proibida.
Respirei.
Engoli algumas coisas.
Voltei a mim.
Olhei pro reflexo no espelho:
o cabelo desarrumado, o rosto alegre e vermelho, sonhador...
aquela sou eu... reconheço.
(Então veio a despedida num abraço que poderia ter demorado um pouco mais...
pelo menos.)
(Carrego de novo aquela caixa que aniversaria 15 anos, este ano. Aquela da qual cuidei, por qual me desfiz, que joguei longe, que tentei destruir, que escondi sob um pano, que pensei que me desfiz... mas está diferente. Está bonita e limpa de um jeito que até me animo a guardar.)