28.2.13

Poesia de... opa!

O registro de hoje vale muito! Hoje eu fui para a sala daquele jeito que vou sempre: rotina básica (horários) na cabeça e o resto acontecendo conforme os pequenos vão me direcionando... quero senti-los e quero saber quem são. Nós tivemos uma atividade com recorte e colagem (estão melhores do que eu esperava) que rendeu a ideia para a roda de histórias, que é o nosso post (registro) de hoje...
Eu não leio histórias todos os dias. Eu leio, dramatizo, conto, reconto, invento, canto, danço, faço malabares e milagres, rsrsrs... e eu AMO MUITO isso. Eu adoro contar histórias para eles, adoro ouvir também o que eles têm a dizer. Hoje não tínhamos um livro para ler, mas eu tenho comigo um verdadeiro arsenal, srsrsrrs... sentei com eles com uma tesoura, uma cola e um caderno em mãos (o material que usaram na atividade do dia) e comecei o momento com aquele simbolismo - que estava meio em dúvida se fazia falta ou não (faz, faz muita) (OBS- negrito: eu // itálico: eles - esse é o registro mais fiel que pude fazer, pra ser bem melhor, com todos os detalhes gestuais, de expressão e falas que não consegui discernir, seria melhor uma filmagem do grupo):
"Agora todo mundo vai pegar a chave lá no bolso e vai abrir a cabeça pra guardar a história lá dentro, muito bem, agora todo mundo vai abrir bem os ouvidos também, os dois, né?, pra escutar a história inteira e não pela metade, porque é assim que a gente começa a arrumar a história pra guardar... agora vamos todos fechar um pouquinho a nossa boca, porque senão ela atrapalha na hora de ouvir... isso, agora vamos guardar a chave um pouquinho lá no bolso... cuidado! (espanto!) Se perderem essa chave vão ficar com a boca fechada pra sempre! Daí não pode!" (é uma marcação para o momento, para que estejam atentos ao que vai acontecer, fechar a boca é apenas para o início, porque quando eu conto histórias, eu sempre os convido a falar junto comigo ou a emitir opiniões)
"Essa história que eu vou contar ainda não nasceu, ela ainda não existe, só vai existir quando a gente inventar... Olhem! Eu tenho um personagem aqui na minha mão (tesoura)... o que é isso? Quem sabe?"
"É uma tesoura!"
"Não! Não é uma tesoura! Não fale assim, porque ele vai ficar ofendido! É um animal! Que animal é esse?"
"Uma tartaruga!"
"Uma tartaruga mesmo?"
"Não, é um peixe" / "Uma baleia"
"Eu não sei, só sei que tem um bocarra enorme que abre e fecha, abre e fecha, abre e fecha, abre e fecha..."
(risos) "É um jacaré!"
"Olha, e não é que parece um jacaré mesmo?"
"Não, é uma baleia!"
"Baleia mesmo?"
"(coro) Sim, uma baleia!"
"Então está decidido: É uma baleia, senhoras e senhores! (risos) Tenho outro personagem aqui... (cola) quem é essa pessoa?"
"Sou eu!" (prenuncio de briga, ahahahah)
"Quero saber se é menino ou menina..."
"É um menino!" / "Menina!"
"Quem quer que seja uma menina? (8)... Legal, 8... e quem quer que seja menino? (12)... Qual é maior? 12 ou 8? 12? Todo mundo acha que é o 12? Ok, Então era um menino... E isso? (caderno)"
"Era um negócio! (observem que já não era mais um caderno para eles)" /"Era um tapete!" / "É... um tapete voador!"
"Certo, um tapete voador é uma coisa bem legal mesmo (empolgação)... e esse tapete era do menino?"
"(coro) SIM!"
"E a baleia?"
"Ficava embaixo"
"(dúvida) Embaixo onde?"
"Na água... (como quem diz, "é claro que é na água, né?" rsrsrs...)"
"Ok, era uma vez um menino que tinha um tapete mágico voador. Ele viajava voando pelo mundo todo e visitava castelos, desertos, florestas, mares e oceanos... mas o lugar que ele mais gostava de visitar era o oceano porque era lá que vivia o animal favorito dele..."
"A baleia!"
"Nossa! Como vocês são inteligentes! (surpresa/incrédula - risos deles) Isso mesmo! O animal favorito do menino era a baleia, e a baleia era a sua melhor amiga! Todo dia, o menino viajava com o seu tapete até chegar ao oceano onde encontrava a baleia para... o que mesmo?"
"Brincar!"
"E como foi que aconteceu? Como é que eles fazem pra brincar?"
"A baleia veio pra cima!"
"Como?"
"O menino chamou!"
"Como o menino chamou?"
"Mooooo (imitando uma baleia! GENIAL!)"
"Ahhhh, ele imitou uma baleia, quer dizer que ele falou na língua das baleias! 'MOOOOO' Vamos todo mundo ajudar o menino a chamar a baleia?"
"(coro) MOOOOOO"
"Certo! E eles brincavam como?"
"Com uma bolinha!"
"Então... ele tinha uma bolinha no bolso? (dúvida)"
"Não, ele tinha uma moeda!"
"Mas como ele ia brincar com a baleia usando uma moeda?"
"Não, era uma bolinha!" / "Não, a moeda era pra comprar a bolinha!"
"Então ele já tinha usado a moeda para comprar a bolinha... foi isso?"
"(coro) Sim!"
"Ok, então o menino jogou a bolinha para a baleia e a baleia... engoliu a bolinha! (espanto)"
"(espanto)"
"Vocês sabiam que a baleia tem um 'buraco' nas costas por onde..."
"Ela solta água!"
"...isso mesmo!!! (empolgação)... e foi por esse buraquinho que a bolinha saiu e foi parar de volta  na mão do menino... eles ficaram um tempão brincando e brincando até que... (bocejo/espreguiçando) "
"Ele ficou cansado!" / "Ele queria dormir!"
"Isso, o menino ficou muito cansado e se despediu de sua amiga 'Tchau, baleia, agora eu preciso ir descansar!' e se deitou em seu tapete mágico, que o levou de volta para..."
"Sua casa!" / "Sua cama!"
"Isso, para sua casa, onde ficava sua cama, e onde o menino se deitou e dormiu até o dia seguinte, quando saiu novamente para brincar com sua amiga... Fim!"
(palmas!)


Eu costumo realizar muitos momentos de construção coletiva, como esse, hoje foi o primeiro momento com esta turma e foi uma surpresa muito agradável! A turma toda reagiu tão bem, foi tão participativa, que parecia que estávamos fazendo esse exercício há muito tempo (geralmente eles precisam de um pouco mais de ideias ou de exercícios para participarem com tanta coerência, mesmo quando são orientados e estruturados pela minha fala). A princípio, eu organizo a sequência e seleciono as ideias de algum modo e, conforme vão participando desses momentos, eles vão adquirindo repertório de ideias e estruturas da língua (sequências, organização, enfim) e o meu papel se torna apenas o de organizar e gerenciar as participações, porque eles se tornam os autores completos de suas narrativas. É um momento fabuloso, um momento que propicia muitos conhecimentos, além de auxiliar o próprio desenvolvimento de suas oralidades... acho que é um dos momentos mais completos, aliás.
Existem outros momentos (eu trabalho com eles o dia todo, em diversas situações comunicativas) para que suas falas sejam trabalhadas... a história é um dos meus favoritos, mas eu também gosto de conversinhas que tenho com eles, aleatórias, e falas que os ajudem a lidar com sentimentos e atitudes que não são tão bem recebidas pelas regras sociais (e por quase que todos os adultos, ainda e infelizmente..., que acreditam que crianças não têm suas vezes para reclamar, responder, sugerir, debater, argumentar, perguntar, entre outras coisas que devemos aprender desde cedo). É quando fazem algo que eles não gostam - "Você gostou que isso aconteceu? Não? Então você precisa dizer a (seu amigo(a)/ até mesmo a algum adulto) que você não gostou e também dizer a ele(a) para que não faça mais isso." "Você já conversou com ele? Precisa de ajuda para isso?" "Você já sabe como deve dizer, pode fazer isso sozinho." "Por que você acha que isso não é legal?, pode dizer o que você acha..." "Você tem alguma ideia diferente? Podemos tentar fazer assim, é uma boa ideia // não acho que podemos fazer assim, porque pode acontecer algum acidente/temos horários que devemos respeitar/na escola não podemos fazer assim/ não temos tempo para isso agora, mas podemos fazer em outro momento dessa maneira" "Você está reclamando disso, mas consegue se lembrar que fez a mesma coisa com seu(a) amigo(a)?" "Eu não gostei do modo como você falou comigo... eu não falo desse modo com você, gostaria que se desculpasse e falasse de outro modo" "Eu não sei responder agora, mas posso procurar saber e te dizer depois/podemos pesquisar e tentar descobrir" "e se a gente escolher fazer outra coisa? Alguém tem alguma ideia?" "Vamos decidir juntos o que é melhor, vamos votar". Enfim, são apenas exemplos... basta acreditar que está lidando e formando outra pessoa, que tem direitos, deveres, desejos, ideias... assim como nós temos. Sei que sofremos muita pressão, mas tratar alguém deste modo não tem vínculos com nada do que sofremos (estamos sempre errados e todo mundo acha que pode fazer o nosso trabalho melhor do que nós mesmos)... tratar as crianças assim é respeitá-las pelo que são e orientá-las, formá-las para o mundo. Tratá-las assim não é difícil e não significa que vamos perder nossa razão/'poder'/disciplina... ao contrário, eles adquirem confiança e se sentem muito mais seguros ao falar conosco e buscar soluções para seus conflitos de maneira mais apropriada...
E esse post está virando algo que eu não pretendia no início... acho que é mais um desabafo... afinal, eu sou constantemente criticada pelo meu método de trabalho quando dizem que o "meu jeito" é "mole demais" e que é por isso que eles são "assim". Hoje mesmo, não preciso nem me esforçar em pensar quando foi a última vez que me disseram algo do tipo, hoje, às 7h da manhã, me disseram que meu jeito é o de "irmã mais velha" ou que "sou criançona" ou que "deveria ser mais firme", o "ser firme" para essas pessoas ainda é reprimir os seres e acreditar que isso é o correto. É fazer com que se encaixem "à força" a uma regra social que não compreendem, não gostam ou não acreditam. E como vou explicar que eu construo tudo isso diariamente, tentando não oprimi-los, mas oferecendo uma ajuda para que sofram o menos possível com uma adaptação ao mundo e, futuramente, que me deixem orgulhosa quando eu descobrir que um deles será capaz de mudar alguma coisa que está errada no mundo porque é capaz de pensar, de questionar, de argumentar, de ter o direito, de verdade, de achar que as coisas podem ser melhores... e mudar. Mudar nem que seja uma atitude egoísta próxima a eles.
Frequentemente sou taxada de 'permissiva' (não de forma tão dura assim, mas o que dizem é quase isso), 'boazinha'... coisas que denigrem meu lado profissional que venho construindo com tanto esmero. Antes eu ficava muito mais chateada, revoltada, porque selecionam recortes do que (pensam que) vêem e me julgam sem conhecer o que faço por essas crianças. Sem reconhecer meu amadurecimento, o meu ganho de confiança, porque eu realmente acredito no que estou fazendo e amo ser tão útil para essas crianças... esperando que isso brote e ninguém mais tire deles.
É isso.
Também não quero ser modelo de nada, nem que ninguém diga que meu trabalho é maravilhoso e que fiquem revoltados junto comigo. Gostaria que considerassem a ideia e que apenas tivessem a boa vontade de considerá-la um modo de existência muito possível. Até porque eu posso estar completamente enganada mesmo... e eu também cometo muitas falhas e faço muitas coisas de qualquer jeito... Isso é só algo que me conforta e me faz imaginar que talvez eu esteja realmente indo por um caminho bom.
Agora sim, é isso, rsrsrsrs...