...e dois buracos no coração não são fáceis para ninguém
O buraco bem fundo toca a alma, carrega a poeira do tempo pra dentro e vira do avesso, deixando à mostra toda a carne ardente como brasa recém-nascida. Foi nesse buraco, hoje, que enterraram o corpo gelado do meu tio. Lá, no chão do cemitério, também enterraram muitos amores e lembranças que escorriam pelos olhos dos meus primos e de minha tia. Olhos vidrados, fitando o fio tênue, demasiado delicado, que saía e ia pra dentro do caixão - libélulas dançavam sobre as placas com vários nomes: Máxima, João, Geraldo, Manabu e agora a placa a ser colocada, a do José, meu tio. Esse buraco fundo cresceu de repente, quando decidiu levar, primeiro, o meu pai. Foi um tapa violento, até injusto, que o abriu - como se todo o espaço que antes fosse preenchido por ele estivesse sendo usado pra cobrir o seu próprio túmulo - nesse dia, não havia libélulas para enxergar, nem nomes e fotos para ver, havia apenas a sensação de que a qualquer momento meu pai chegaria para assistir ao seu velório. E que violência foi usada, que tremenda força, que injusto foi esse tapa hoje! E o que dizer para eles?, seja o que for, não vai ajudar a tampar o buraco...
Nem o deles, nem o meu.
(Eu tenho um consolo, entretanto... e meu consolo está nos braços e na força da minha família. Seria impossível reencontrar o sentido durante essa ausência se não existisse a família.)
Esse texto acaba aqui.