Eu ia começar a escrever aqui com "e assim não me sinto roubada; nem minhas memórias, nem meus gostos, nem meu passado, nem o que sou é furtado pelo mundo" [isso veio de pensar sobre como algumas pessoas se apropriam daquilo que achamos que apenas nós temos o direito de gostar e veio, também, de pensar em como nós nos apropriamos do que é dos outros e não nos sentimos culpados por isso - afinal, quem é dono do quê?, o que é exclusividade?, o que é ser único?, o que é original?; só que hoje o meu dia foi algo realmente diferente do que vêm sido os meus dias durante o descanso do descascar a cebola [longa história].
Em conversa à toa, num minuto de sossego do trabalho, conversamos sobre traumas e medos; entre as confissões, eu acabei falando do meu. Senti que foi a primeira vez que fui realmente sincera e aberta com alguém sobre o que é que me compõe. No meu ponto de vista, nada nos torna mais reais e mais humanos que dizer dos nossos medos.
Confessar, enxergar, admitir, expôr, pensar sobre algo que nos apavora nos dá chances de nos sentir dominando uma situação, que muitas vezes é bem menor e mais simples do que enxergávamos, geralmente é... enfim, um enigma só é um enigma até ser desvandado. Logo, conhecer o medo é o que nos dá as ferramentas para compreendê-lo, não é óbvio?
Não que eu nunca tenha dito nada a respeito dos horrores que me cercam; todo mundo sabe dos meus temores acadêmicos, alguns sabem dos meus pavores quando falo de relacionamentos amorosos, outros sabem dos meus horrores quando falo da minha vida profissional, mas quem sabia dos meus medos particulares? Aqueles que ficam ali no fundinho da alma, esquecidos, evitados; aqueles que modelam como agimos e pensamos a respeito de tudo? Quem, diários? Nem diários. Essas coisas não contamos nem pra nós mesmos, porque elas relamente nos apavoram. É preciso muita coregem pra encará-las.
E hoje eu me senti e ainda me sinto corajosa. E me sinto feliz por não ter entrado em crise quando pude olhar para o meu monstro. E é mesmo o meu monstro (alguém diria que: se não mete medo, é porque não tá vendo direito).
E daí eu pude entender o meu gosto por coisas bizarras, por coisas grotescas, por tantas outras coisas que acho incríveis e que meus olhos enxergam dentre uma infinidade de tantas coisas tão incríveis também.
Acho que o que eu queria dizer é que hoje eu reencontrei um pedaço de mim que eu havia perdido há muito tempo e que havia me acostumado a deixar perdido até ter crescido o bastante para carregá-lo de novo.
É como se eu encontrasse uma lente que, através dela, poderá me fazer enxergar muitas linhas tênues e perigosas, me levando a compreender coisas de maneira mais completa e mais minha. Aquelas coisas para as quais não estava preparada ainda.
É uma maravilha ter esse presente e essa oportunidade de voltar a me encarar e voltar a existir cada vez mais.
(Eu não queria que soasse desta maneira, mas não houve como expressar de outra forma, já que era urgente.)