Lendo Pessoa, porque a necessidade foi maior do que a vontade de realmente deixar os versos pra lá (e evitar entrar em conflito comigo mesma outra vez), comecei pelos versos que de repente pularam da minha memória e ficaram me cutucando até que eu lhes desse a devida atenção. Parei, concordando e achando maravilhosa a metáfora, neste trecho perfeito (talvez porque ande enamorada de metáforas que tenham mar, peixes, navios e etc e tal do gênero, talvez porque eu ache que a gente é mesmo assim, essa criatura selvagem e linda):
"[...]Como eu vos amo a todos, porque sois assim,
Nem imorais de tão baixos que sois, nem bons nem maus,
Inatingíveis por todos os progressos,
Fauna maravilhosa do fundo do mar da vida![...]"
Álvaro de Campos, Ode Triunfal
E eu me sinto, neste exato momento, um complexo organizado de pensamentos e sensações.
Ser é a essência; ser tudo o quanto posso, assimilar todas as experiências possíveis;
eu sou, e é o que me basta.
E, depois de escrever isto, que é uma ideia que persiste em tudo o que escrevo há tempos, li e vi que Pessoa disse algo como isto noutro poema, Passagem das Horas:
"[...]Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados,
Ser a mesma coisa de todos os modos possíveis ao mesmo tempo,
Realizar em si toda a humanidade de todos os momentos
Num só momento difuso, profuso, completo e longínquo.[...]"
Álvaro de Campos
Só precisei escrever em algum lugar estes apontamentos, porque, sei lá, era algo que não queria deixar perdido por aí.
Fui levada a remoer os versos que com o passar dos anos são cada vez mais verdadeiros para mim, porque parecia que uma das coisas que mais me incomoda agora estava a dialogar com eles. E estava mesmo.
Ah, mas, deixando os incômodos por um instante, é preciso celebrar: como eu adoro ser parte disso tudo e ser esse eco de consciência maravilhosa que somos todos nós... Afinal... o maravilhoso de ser humano é isso mesmo, ser. Ser essa coisa complexa que é ser igual e único ao mesmo tempo, ser inteiro, bom e ruim... ser.
[e a graça está sempre naquilo que não é dito, obviamente.]