Estava me preparando para uma narrativa delicada; um discurso tênue que quase sumiria perante os traços delineados dos acontecimentos de hoje.
Fui a uma festa de aniversário.
Se você que está lendo já vislumbrou o que vem a seguir e decidiu parar de ler agora, tenha calma, garanto que este não é mais um momento de elucubração. Eu teria muito pouco tempo para resgatar a poesia de qualquer coisa que fosse seriamente pensada no momento da festa. Teria trabalho para diluir as camadas penosas, pesadas, de pensamentos firmemente tecidos, magicamente entrelaçados, para então separá-las e pensar num valor qualquer que lhes coubesse como luva e, finalmente, quase certamente, decidir o que seria mais interessante e mais bonito de pôr em dança com as palavras.
Daí que fui à festa do primeiro aniversário do primeiro filho de um primo meu que quase foi o primeiro de todos nós.
Entretanto, o fato é que nunca me senti tão outra quanto hoje entre meus parentes. Nunca me senti tão alheia, tão distante, tão rastro, tão poeira, tão mínima, tão... E não imagino de onde possa ter surgido tal sensação - atreveria-me a pensar que possa ser do novo corte de cabelo, mas não é.
Daí... e daí que fugiu o resto de mim ali no meio de todos...; uma coisa sem limites: sem forma, sem hora... era o que eu era até escapar o resto, mas agora...?
Por fim, alguém me diz que eu não estava comum nem a mim mesma, constatando ("Por que está triste?") com muita segurança; eu, decidindo querer mesmo escapar dali, pensei que aconteceu mais uma mudança verdadeira.
O eu distante me acenou, lá na festa, e o eu mais próximo continuou a caminhar... para onde eu nem faço questão mais de saber ou adivinhar.
O abismo que se abriu entre mins está aí para ser desvendado - e agora pouco me importa se há caminhos para defini-lo e compreendê-lo. Agora não, pelo menos.