30.12.13

Perigo

A bailarina anda sobre o fio fino,
dobrando seu centro pra frente, pra trás,
beirando a queda iminente.
A bailarina dá um giro inseguro,
olha pro fio do começo e treme,
treme das canelas às mãos, que seguram uma xícara de porcelana, frágil.
A bailarina salta certeira,
dobra os joelhos para amparar os quadris, direita, reta, classuda...
endireita-se e, de repente, não sente mais medo.
A bailarina se venda,
solta os movimentos,
sem saber onde vai chegar: ao chão, ao fim, enfim...
A bailarina segue, com dedos espertos,
dançando o fio, como uma extensão de si...
sabe bailar.
E
Oi
Mas
Desce
Desce mais
Rola pelo monte
Salga a linha experiente
Brilha, revivendo o mundo,
Cai no abismo, dor nenhuma
Abstrai, suspende, sublima
Pende mais aquela uma
pequena, menina, vai
deixa ver descer
ali no caminho
na perfeita
direção
e

se

me
sobe
um só
anseio de
segurar-lhe
a mão
não
é
é
de
que
o que
me causa
espanto

Hoje foi um dia de cheiros.

Cheiro da minha roupa lavada,
do óleo sobre o corpo limpo,
do chocolate à véspera do maior encontro que ansiava para este final de ano tão repleto...
Cheiro de laranja, canela, índia no meu quarto,
de abraço carinhoso e fraterno, num colo derretido pelo sol a pino...
Cheiro de café moído na hora,
com um toque de doação, entrega, amor,
e o suave sorvete macio, que dançava no fundo do copo com a colher.
Cheiro de vinho seco argentino,
não dos melhores, como disse,
mas que pra mim era mais que o suficiente...
cheiro de café de novo, com brownie.
Depois o cheiro da tua fumaça
e do teu perfume...
indo pra cama junto comigo.
Tem um sabor de não sei bem o quê...
acho que de coisas que ficam no indizível,
intraduzível,
insolúvel...
mas que ficam num canto aconchegado da alma,
quentinho e caseiro,
de cheiro de lar, pra onde sempre volto...
segura, inteira... não sei.
Acho sempre que te amo, mesmo quando te odeio com todas as minhas forças.

24.12.13

Este ano foi um dos mais incríveis da minha vida.
Um ano de muitos erros - principalmente por eu me permitir cometer estes erros, sem me punir depois -, um ano de mudanças - e, novamente, por eu me permitir curtir novas e diferentes chances que surgiam diante de mim... considerando que muitas delas envolviam o verdadeiro trabalho de escuta, de entrega e de tolerância - um ano de muito crescimento e amadurecimento, um ano de paixões avassaladoras e que me fizeram confortável, não um bicho recuado - por mais que nenhuma tenha se concretizado como era meu desejo.
Perder o medo de me machucar, de tentar, de seguir com o que desejo mais sinceramente, me permitiu ultrapassar a barreira gigante que me separava do mundo e de mim.
Este blog continua vivo, como eu.

------------------------------------

Então disse pra uma amiga "gosto de ler depois de algum tempo o que escrevo no meu blog, porque fica muito claro os temas que vou investigando... houve uma época em que falei de florestas, depois de mar, de bruxas, plantas..." e agora acho que estou entrando na culinária.
Este tema é muito, muito, muito significativo, acho que, dentre todos que consigo identificar, o mais.
Escrevi estes quatro textos a seguir com a ideia de que cada um representa uma unidade de experiência, mas que eles são um conjunto de coisas que devem ser digeridas juntas. (pra mim é bastante óbvio, mas não sei se fica claro pra quem lê, que não seja eu) (e essa, honestamente, ainda não é minha preocupação).
Bem, o mais engraçado é que nada foi calculado... fui escrevendo e o tema foi aparecendo... e, vejam só... nada também foi elaborado no sentido de escrita... quero dizer, é escrita espontânea, com correções posteriores acerca de pontuação/repetições quando usadas para retomar assuntos perdidos, durante a escrita, não para compor o texto/algumas trocas de palavras interessantes (especialmente nas repetições)... só.
Enfim:
------------------------------------

1. Do que nunca existiu, falando em experiências culinárias

Toda minha vida busquei um sentido para alguns encontros e sofrimentos advindos de expectativas que criava sobre eles. Eu não estava pronta.
Sério que não basta apenas desejar.
Pra amar além da responsabilidade consigo mesmo e do egoísmo, é preciso amar de verdade a si mesmo.
Então, antes de hoje, considero que tive poucos amores na vida, porque havia pouca licença para eles em meu espaço, que ainda nem era meu.
Logo, a partir de agora, esqueço o frango xadrez, esqueço o cheiro de café da manhã que vinham dos olhos azuis, esqueço da imaturidade de sugestões de cafés em hotéis pelo mundo, esqueço da limonada amarga e indigesta que bebi enquanto tentava me esquecer de um porre de vinho... pra mim, tais coisas nunca existiram. Só contarei a partir dos três copos de cerveja que me fizeram falar com ele, do café gelado que me fez entender que não há como me desvencilhar dele e da caipirinha que ele me trouxe enquanto eu tomava um banho de sol com o nó desfeito do biquíni.

------------------------------------

2. Sessão de descarrego

Despeço-me tranquilamente daquelas mãos que percorriam minha alma, totalmente entregue e à espera do arrebatamento. Despeço-me, não por não falar, mas por acreditar que todas as histórias têm um tempo de durar e, depois...
Faço isso tão madura que tenho a certeza de que finalmente a mulher que estava amordaçada no fundo do mar veio à tona, respirou e se libertou.
E minha gratidão por ajudar-me nessa percepção é desmedida. Eu o amei por isso, o amei por sua disponibilidade e o amei por sua língua, que me dizia de sonhos e ideias que me assustaram, mas que me transportaram pra um lugar importante na sua vida... por um instante frágil, doce e quase que irreal.
Só que não posso lidar mais com insegurança... insegurança que você me põe quando nos entrelaçamos e logo depois nos separamos como completos estranhos que sequer sabem da existência um do outro. E daquela outra, a pior, que me fez passar quando estive completa ao seu lado, mas me ignorou quase por completo... um pouco antes de despedir-se, sem, ao menos, um beijo carinhoso nos meus lábios...
Confesso que senti que meu coração se quebraria novamente, se espatifaria, e seria dolorosamente insuportável atribuir à mulher essa culpa. Pensei por muitos dias, entendi a minha dor e meu coração, por fim, não se quebrou... mas minha vontade foi de nunca mais ouvi-lo. Mesmo assim, sou paciente. Pacientemente esperei por quaisquer coisas que quisesse me dizer, que continuassem ou deletassem essa experiência das minhas recém-nascidas expectativas...
Recebi o silêncio.
A princípio doeu, doeu um pouco, tipo ferrão de formiga saúva no dedinho do pé.
Parei mais uma vez pra entender a minha dor... entendi o orgulho, entendi a imaturidade, entendi as expectativas que jamais deveriam ter existido, porque não devemos nada entre nós, entendi tudo o que me pertencia para poder tomar esta decisão de me despedir...
É que venho carregada de outras histórias, também, que sempre revivem, me rondam.
Depois que você partiu enchi novamente a taça de vinho, aquele vinho antigo, que fica mais saboroso com o tempo, e percebi que é possível beber, ficar tonta, mas não perder o controle e, muito menos, perder-me de mim mesma... eu me encontrei de verdade e agora não largo mais de mim.
Além disso, ainda tenho espaço muito amplo pra carregar novas doses... que podem não ser minha gana e o que procuro, mas, com certeza, são do que não pretendo mais desviar.

------------------------------------

3. Cozinhando o galo

Sempre gostei de ver mãos fortes num trabalho artístico, daqueles que alimentam a existência.
Não havia avental, não havia relações socialmente construídas por quaisquer ismos... havia um homem e uma mulher juntos na mais simples e sincera equação de amor.
Pegou o garfo e, paciente, reduziu a massa a um farelo milimetricamente calculado, como obra de engenharia. Sem capacete de proteção, me lancei ao pote, derretendo o queijo com as mãos... sorri e voltei a respirar.
Misturou a salsa à dança do garfo, azeitou meu olhar e depois me comeu com sal. O queijo em minhas mãos eram insuficientes... suspirei e continuei a montar o prato feito a várias mãos...

------------------------------------

4. Do vinho ao café gelado

Então, depois de muito tempo tentando decifrar os caminhos que me levaram a cozinhar, subitamente compreendi que fui levada a desejar aquela taça de vinho por um sabor acre de infância que me fazia mais completa e segura.
Virei a jarra, seca, de vinho tinto suave sobre minha taça, ainda tentando entender pra onde isso queria me levar. Depois virei cinco vezes a taça em meus lábios.
Tentei alcançar sua perna e ultrapassar um limite que insiste em me engradar. Fez bem perceber nossos joelhos se beijando, mesmo que não visse mais nada com clareza que me é típica... os olhos turvos me levaram pra um lugar paralelo, d'onde pude observar o mundo com um entendimento sem pudores, sem reservas, sem julgamentos...
Sorri internamente, porque percebi que aquilo não me feria mais. Era bom, pela primeira vez, não almejar nada além do momento, criando uma quimera sobre simples sinais amigáveis...
Então me levou em casa, saltou pela portado carro tão rápido quanto clamei por seu abraço e isso me deixou sinceramente feliz, e o suficiente.
Compreendi muita coisa... especialmente que era hora de mudar a bebida quente, alucinógena, por uma bebida mais alegre e doce; que é como quero guardar a recordação de nossos encontros pela vida... esperando que seja longa o suficiente pra mais alguns presentes como este.

15.12.13

Ninguém

Transpassei os sons num laço íntimo, sereno, dum crescente anseio. Respirei, suspirei, e o momento era eterno, desses que não se apaga nunca mais mesmo.

E que seja esse o maior problema hoje, eu desejo.

Porque a necessidade do afago, aquela que não sei porque sinto ainda, vem me corroendo e me levando com a maré...

Ninguém deveria ter um coração quebrado tantas e tantas vezes...

Sei que me quebro porque me entrego sem dó de mim. Um presente fino e delicado, dedicado integralmente. Acho sinceramente que é porque tenho necessidade de acreditar em alguma coisa, mesmo que ela não exista.

Nenhuma pessoa deveria se sentir tão insegura.

Não espero mais na janela da vida. O fato é esse. Meus olhos percorrem a imensidão da vida, na gana de beber todo o mar. E não queria mais esperar por aquele nó. Todavia... é uma necessidade genuína e biológica, das que não tem muita conversa até saciar.

Com o corpo não se conversa com a cabeça.

Passei os dias tentando acalmar a fera, ludibriando vergonhosamente com pequenos presentes diários, públicos, não públicos... mas estou exaurida. Não sei mais o que alimentar desse anseio...

Olho insistentemente para o maldito sinal, que não chega.

E daí...?

Não sei.

Ando perdida no meio de tanta imensidão. Mas já decidi muitas possibilidades. Decisões eram partos, hoje são o que devem ser: responsabilidades assumidas sem choramingar. Então decidi... decidi que não é isso que quero e que busco.

Ninguém busca tanta ausência.

Ninguém busca por regalos de misericórdia.

Ninguém.

E como lidar com esses pensamentos cretinos que visam confundir a parte que ainda tem esperanças e anseia por milagres? Não quero! Não quero isso também!

O que quero é o acesso simples, a disponibilidade, a maturidade.

E o que sustenta a minha vida tem virado num sentimento que desconhecia, mas que agora está completo. Esse foi um presente verdadeiro e necessário. Hoje sinto o amor bem mais inteiro quando sinto o ódio.

Não, não é intencional tanta aspereza. Também não é caso de dar dó. Também não é preciso que ninguém conserte o ódio. O ódio não precisa ser consertado. Ele precisa existir.

Eu amo e odeio e me sinto mais completa.

Não pollyanno mais a minha vida, porque me fartei de me privar das coisas completas. E ainda bem que só devastei minha infância ao não ler a sequência - moça. Queria mesmo que fosse culpa, influência, do livro, mas a culpa é apenas minha. De ignorar as coisas completas e escolher só a parte mais macia - que nem sempre é a mais saborosa.

Ainda bem que hoje entendo e sinto prazer sincero com o que é mais grotesco.

Ainda assim, ninguém deveria sentir só insegurança.

Ainda escrevo, mas a vontade era de dizer isso ao ouvido atento, bem pausado, que é pra certificar de que a mensagem seja clara e não prejudique o entendimento. Escrevo, mas anseio loucamente...

Alguém?


[Isso foi só uma tentativa de traduzir uma espera angustiante. Nada além disso.
O bom da minha vida, pra eu ser livre, é assumir responsabilidades acerca de minhas próprias escolhas. Nem sempre é fácil, porque as coisas são inteiras quando existem - boas e ruins. É um eterno exercício de amor comigo mesma e com o mundo, acredito. E não tenho problemas com coisas inteiras também, pelo contrário, pra mim, são absolutamente necessárias. Não polliannizar a vida é saber lidar com ela como acho que deva ser.

Não é transtorno algum, é uma necessidade... é assim que venho resolvendo a minha vida, é assim que tem doído muito menos, é assim que tem sido tão esclarecedor...
Também não é resolução de final de ano e/ou promessa pro seguinte, embora soe como.
Logo, toda essa angústia, todo esse ódio, toda essa ausência que sinto existe porque eu ajudei a esculpir e, quando entendo isso, é libertador.
(Agora falta levar isso pro trânsito, ahahahhaha)
É isso: assumir minha posição no mundo, inteira, acho mesmo que é isso que é ser livre de verdade: ter autonomia para escolher, arcar com as responsabilidades envolvidas nesse processo.]

8.12.13

Falando sobre estágios do desejo

Andei meio sumida de verbalizar aqui, mas realmente passei sem tempo para escrever. É a primeira vez que isso acontece. De eu não ter tempo pra desvendar/dissecar/entender o que está acontecendo comigo, querendo viajar para este processo, mas não tendo um naco de sossego comigo mesma... andei, nesses últimos meses, saçaricando bem pra fora de mim. Eis que descubro o tesouro: eu. Não, não estou sendo egocêntrica, só quero dizer que fiquei tão afastada de mim, que tive um tempo suficientemente bom para menos ansiedade, menos exigências e, consequentemente, menos sofrimento com minha existência. Quando vi, dei um salto grande no ar, mudei de lugar, cresci e finalmente posso dizer que uma mudança que tanto ansiava me trouxe um belo presente... de mim para mim.
Eu me permiti embarcar pr'aquela viagem em alto-mar, da qual disse noutro post mais antigo... e descobri essa singela passagem, mais adiante neste post; uma passagem que desaguei no facebook - que se tornou um local propício, pra este momento.
Como a proposta deste blog ainda é muito importante pra mim, achei incrível notar minha escrita não como um produto, mas realmente como um processo e me debruçar numa auto-análise.
A primeira coisa que notei, que não me custou muito tempo/trabalho, foi o tema escolhido... ultimamente tenho escrito muito sobre "desejo", "desejar". Lembro que isso já vem acontecendo há algum tempo... mas, o que torna este interessante de se notar é que eu nunca consegui realmente falar ou ser totalmente honesta com esse sentimento/sensação do corpo. Talvez seja a mudança por qual venho passando, me pondo totalmente disposta a vivenciar algo do qual nunca me permiti antes... por medo, por medo de tantas coisas... me cerrei num local, resguardada, sofrendo com ideias, com auto-estima capenga, com desconfiança, me protegendo de não sei bem o quê... acho que de meus próprios julgamentos. Ninguém tem culpa desse colosso doloroso que venho perrengando desde a minha adolescência... sendo objetiva: esse desejo que move a gente instintivamente, nesse grau e constância e urgência... é a primeira vez que sinto. Antes, eu não tive experiências dolorosas em relacionamentos porque nunca me permiti me envolver em um. Depois, fiquei presa num amor que até hoje não entendo e me sentia impotente de satisfazer qualquer necessidade minha por acreditar que era absolutamente injusto com o outro... nossa! Eu me agredi tanto, fui tão cruel!
Mas neste ano me libertei da prisão. Começou lento, no final do ano passado, depois que fui para as aulas de teatro, alguma coisa me impulsionou para enfrentar a Loraine cruel e repressora e daí... daí eu cresci. Cresci e virei uma mulher completa. Uma mulher capaz de se entregar como mulher, mesmo que ainda não tenha concretizado nada. Eu me descobri completamente entregue ao desejo.
Então tudo passou a acontecer... e quando passou a acontecer eu achei que deveria registrar...
O que acontece além do tema é a própria mudança da escrita. Minha capacidade de recriar uma experiência muito concreta e real numa imagem poética parece estar tão mais fina, tão mais delicada, tão mais exata e preocupada... mesmo que eu ainda tenha muito pouco daquele caráter de escrever como escreve um engenheiro, às vezes escolhendo melhor as imagens ou as palavras ou metrificando ou sonorizando..., minha escrita progrediu prum nível de abstração e pra um texto menos vadio. Não sei se me explico.
Como ainda escrevo com a sensação, o debruçar para compreender o que eu mesma queria dizer foi mais nesse sentido... peguei os trechos que soltei e reli e reli e então a doce surpresa: eu fiz todo o caminho físico da sensação e ainda fui capaz de conversar com as ideias que me aconteceram diante dessas novas experiências... como foi sentir essa sensação e o que isso me causou no pensamento... pareço louca, mas é exatamente isso que quero dizer: consegui, numa imagem poética, um nível de abstração textual significativo que fala de corpo físico, sensação e pensamento de uma experiência concreta.
Então, aqui estão os polêmicos... entre colchetes estão um pouco da minha análise:


[1- A chegada - aqui estava procurando identificar/precisar a sensação que estava acontecendo em mim - até então... novidade // o que aconteceu de verdade: eu me permiti vivenciar um momento diferente e, depois de vislumbrá-lo, passei a semana toda ansiando para que acontecesse]


No teto, a pequena rachadura escoa única gota,
O mar denso, cainãocai, numa angústia sem fim,
Tormento que transborda uma existência sensível, mas completa.
Eu... torcendo: pinga! pinga! pinga!
E ela, como bons ouvidos e se encorajasse, se desprende numa liberdade que deixa o ventre berrando, ansiando por concretizar a queda...
Eu... torcendo: vai! cai! cai logo!
(Não aguento!)


-----------------------

[2- A espera e um coração partido - neste ponto, quis falar sobre como era difícil ansiar tanto por algo que não aconteceu no momento da minha ansiedade // de verdade, esperei por toques que não chegaram, me senti rejeitada, enganada, chateada... minha vontade foi de desabar... mas daí... daí vem a parte linda: essa era a Loraine de antes. Agora, a Loraine é uma mulher adulta e não vê mais as coisas assim... quando realizei isso, percebi que estava sendo injusta e burra. Revi a situação, refleti e - mesmo que houvesse acontecido isso - percebi que isso não é problema para mim. Isso não é o suficiente para abalar a mulher que me tornei... isso não muda os fatos anteriores... ]

"Anseio I" ou "Procurando o desejo no cotidiano"


Espia o pão fresco e partido. Dele sobe uma leve brisa, quente feito o diabo, qualquer passada de manteiga se desfaz pelos poros, enormes fissuras de canto a canto.
Não houvesse tanto significado, seria um simples pão com manteiga.


----------------------

[3- A partida, a constatação e a entrega - o mais lindo, total ato de amor. Essa é a escrita mais precisa que consegui pra mostrar um quadro do desejo, o que aconteceu no momento, minha expectativa, minha entrega, enfim...]


"Anseio II" ou "Dos fios de ar quente que escorrem pro mundo quando alguma coisa acontece"

Apago a vela e vejo o vento levar
a fumaça macia que dança no ar.
(Um fio delicado, tênue, beirando a inexistência)
Pois que o que fica, depois, na querência,
é só meu olhar, sereno, totalmente entregue ao momento.

17.11.13

A onda que andava mansa, manca, bamba,
agora é ressaca, tripudiando durante a tarde inteira.
Sem um instante de calmaria,
me afoga com gotas de sal, que escorrem por todo o meu corpo desavisado.
Não penso em nada.
Felicidade é não pensar além da própria tormenta.
Fosse um náufrago a partilhar esta desventura,
talvez um esforço mútuo para driblar o desconforto... talvez, talvez...
Cruzo as pernas, me viro, nada é solução,
o frenesi da ressaca percorre minhas veias, se aloja em meu centro e me conduz ininterruptamente.
Agora sou mar, mareada, maresia...
Como faz para preencher toda essa ânsia vazia, que dança frenética em pleno crepúsculo?
Seria meu corpo um vórtice para o além?
Seria meu estado de êxtase uma espécie pecaminosa de ser?
Sinto a onda lamber o que me alcança, deixo a espuma escorrer entre minhas pernas,
sinto o cheiro azedo do mar, abro os olhos e tudo é imensidão.
Onde estou?
É um convite?
Se for um convite, estou pronta. Absolutamente pronta.
Deixei a garotinha na orla, em segurança, mas ela não precisa fazer essa viagem para tão longe... ela pode ficar.
Vou me afastando, contando o adeus enquanto olho para seus olhos serenos. Ela sorri com o corpo inteiro e diz com os olhos que é hora de crescer.
A onda me engole e adentro num pequeno espaço onde sei o que devo buscar.
Mas quando desperto pro mundo, me perco e não sei mais nada.
Espero, no balanço da vida, sozinha, enfiando os pés n'areia, com os cabelos na cara, olhando pro infinito.
Quem vem lá?
Não vem ninguém.
Quando meus tornozelos sentem-se no berço macio, sinto que não devo ficar parada no mesmo lugar
Então caminho.
Vou indo, puxada pelos cavalos marinhos de espuma, até dançar sem chão.
Viro estrela em alto-mar, despreparada, em caminho certo de perigos.
Acho que não ligo.
A menina ficou n'areia da orla...
Acho que não me preocupo mais.
A estrela boiando no oceano, banhada de sol e de sal, espera...
Toco meu ventre quente e sinto sua reverberação, como ondas mansas, mas cheias de vontade em tocar o céu. Boiando no macio, minhas palavras vão seguindo o fio que segue para longe. Mergulho e levo minha face para dentro das plumas, que às vezes me espetam e se prendem em meus cabelos, talvez sonham em conhecer o mundo... não durmo. Penso. Não, sinto. Sinto o calor percorrer meu corpo, sinto uma necessidade que não explico. Não durmo.
Levo um de meus joelhos para a altura do quadril e sinto um arrepio invadindo meu eixo. Acomodo confortavelmente os membros, depois dos espasmos, mas não é o suficiente para acalmar o corpo. Troco de joelhos e... de novo. Suo. Doi. Sofro de ausência. Desejo.
Respiro forte e com toda a intensidade para encher os pulmões com o volume máximo de ar, que, em seguida, solto bem vagarosamente. Isso ajuda a pensar. Penso. Não é possível.
Busco nas palavras um refúgio silencioso para a ânsia do corpo. Mais um paradoxo para a coleção que venho montando há anos.
Neste instante, paro pra escrever:
Vazio. Branco, riscado, porque é vermelho. Ausência. Querer, de um querer necessidade. Resfôlego. Desfôlego.
Palavras e palavras que nunca traduzem.
Rolo, incansável, vezes olho pro céu, vezes mergulho no macio... essa madrugada é interminável.
Cruzo, descruzo as pernas, tentando, sem sucesso, resolver algum desconforto... quatro horas.
Relatórios. Pensar em trabalho ajuda.
Preciso de um tempo para me concentrar no novo pensamento, não é fácil. A respiração ajuda: pulmões transbordando esvaziam-se em pingos. Agora vai.
Durmo.
Então aquele deslizar da palma da sua mão em minhas coxas fez um mundo de espasmos dançar no meu ventre. Segurei firme, sustentei o seu olhar e sorri. Então mergulhou seus lábios no meu pescoço, e toda a minha fragilidade se pôs à mostra: me vi enlaçada junto ao seu corpo, implorando por mais e mais... mas respirei fundo e me afastei. Duplamente errado e sem sentido; a brisa gelada me tomou e eu fui tomar o sol da calçada, do outro lado da rua. Não vou ser hipócrita de dizer que acabou aí. Não. Continuei olhando, pensando, desejando. Vi aquele sinal esperto, indicando que tem responsabilidade com outra pessoa. Porra, aquilo me colocou de volta pro lugar de onde eu havia conseguido escapar há tão pouco tempo! Então você voltou a se sentar ao meu lado, encostou tua perna na minha e... ponto.
Hoje, hoje foi um dia de folga do mundo. Deitei no sofá e, de repente, meu pensamento o encontrou. Nunca vou conseguir entender com palavras o que só o corpo é capaz de contar. Sei apenas que o corpo é muito, muito, muito honesto com o que sente. Bem como é fiel o suficiente ao juízo. E me pergunto por que é que, com tantas pessoas no mundo, eu sempre acabo me encantando por colossos de dúvidas e de tantas outras coisas que me fazem a mulher mais sozinha, medrosa e chateada da minha existência... nenhuma mulher, pessoa, deveria ser assim.
Nenhum amor deveria ser assim.
Ou é, e todo mundo que sente diz que é aquilo que acalma, que dá segurança e o escambau?
Já me perguntaram o que é que tanto espero pra me comprometer; não canso de confessar que espero por um amor que me tome, me transborde e me faça sentir minha pele um braseiro, meu ar insuficiente e meu desejo tão urgente que chega a doer... mas vou acrescentar um negocinho nessa lista básica: meu amor precisa ser disponível pra mim.

12.11.13

Lá vem o poema

Segura das formas que habito,
vazo de mim pra uma imensidão de significados
que amainam e intensificam a figura que existo.
Nesses pulos incertos que arrisco,
num hálito arisco afasto quaisquer modos
de outras figuras, de outras existências, de formas outras que,
na dúvida se apenas consumo, abaporizo ou me desnudo,
me sirvo num prato fresco de sururus apimentados.
E o engulo qual esfinge, mas na imensidão interna, inerte, eterna,
singularizo e personalizo o que finjo que entendo;
do resto, me livro e digo que não presta.
Mas a verdade é que me perco, tanta coisa pra saber...
A verdade é que não sei e me sei nula... mula.
Que segura nas ancas um arreio, dos mais potentes.
Não doa, não goza, não mente.
Não sente.
Luto por uma golfada serena, madruguenta, que desperte essa feroz égua,
que cavalga e sorve cada salto pelo espaço.
Que entende sua presença.
Que domina seus galopes.
Que manda em sua vagina.
Que é capaz de parir o universo que sonha.

23.9.13

Sempre afirmo que desisti daquele amor que me consome, daí descubro que fui eficientemente incompetente, porque não consigo me desfazer de um micro pedaço que o reconstrói cada vez mais bonito e seguro. Pena. Pena, pois toda essa riqueza existe somente em mim. Logo, nem consigo acreditar na paradoxal fragilidade à qual me submeto sempre que o bonito me seduz. Me desfaço numa rajada de nacos, espatifados como um velho e cansado espelho que se despede da vida ao se desprender de um pedestal qualquer. Essa sou eu, mendiga, febril, desvairada, sem freios na gana de o abraçar até que meus braços não sejam mais meus e se despreguem de mim, largando meu corpo mudo e satisfeito, talvez... não bastasse esse colo, meu desejo é, também, a ânsia descomedida de o ter em todo canto do que eu existo e exalo... é uma sensação de que tudo, toda a possibilidade, é insuficiente... e agora estou desaguando um mar pelos meus olhos, me desmanchando numa querência sem endereço... naquela acepção da ânsia que pressupõe o enjoo, porque o deixo livre e me olha com indiferença, me fala sem sabor e me toca com frieza... e toda a minha alma esperava pelo seu retorno, crendo que estaria mais certo e especialmente mais leve... para brincar, para... sei lá... deixar vir o que quer que seja desse novo encontro que planejo com tanto esmero... por que tão distante, como se houvesse ficado algures, na empreitada de encontrar a si mesmo noutras terras distantes?

9.8.13

Falando em Teatro...

... e da família que a gente escolhe pra gente...

Ah... é triste ir embora, mas valeu à pena cada segundo... até mesmo daqueles em que a panqueca grudava na panela... [foto do Jef]

Vamo' todo mundo pra grama??? [foto da Elisa]

Pensem... [foto da Dani]

E Pensem de novo... [foto da Dani]

E mais uma vez... [foto da Dani]

Se existe... [foto da Dani]

Se há como mesmo... [foto do Jef com a máquina da Dani, rsrsrs]

Existir... [foto da Dani]

Mais família... [foto foda da Dani]


que... [foto da Dani]

panquecas... [foto da Dani]

Ao molho de abobrinha!!!! [foto da Dani]

Ehehehehe... brincadeirinha... se existe mais família que isso tudo, porque existe uma sensação em mim que não vai embora nunca mais... de algo que tocou e ficou acomodadinho bem ali dentro de uma caixinha linda e delicada... acho que a gente cresce e cada vez mais os amigos vão se tornando uma coisa difícil de explicar... [foto da Elisa com a máquina da Dani :)]

21.7.13

[Morrendo novamente]

Peguei aquela semente conservada feito vinho e, na palma da minha mão, vislumbrei os finos fios, quase translúcidos, flutuarem leves com minha respiração; delicadamente, a pousei num solo ardido, na esperança de que ele a envolvesse e a fortalecesse, mas a plantação de pimentas foi tão fria que nem viu a novidade.
Paciente, esperei por meses o primeiro sinal de que o braseiro a acolheria. Um silvo ritmado soou nos fios... meio rota, a semente se abriu com o toque e despejou seus sedosos e longos fios sobre o solo sedento; num emaranhado brilhante e sereno, a semente brotou vistosa e confiante, ergueu-se um palmo da terra e viu como era bonito aquele lugar.
O tempo passou rude, depressa, e trouxe a erva emaranhada aos caules sadios da pimenta; tímida, a semente viu o campo degradar-se até restar só, apática e seca, no solo salgado...
Peguei aquela escultura dolorosa e guardei numa caixa com todo o respeito, resguardando aquela história triste...
...
Inesperadamente, após anos, a plantação ressurgiu, e, trancada dentro da caixa, como mágica, a semente voltou a crescer. Cresceu que suas raízes fizeram buracos no fundo, clamando por serem enterradas... Obedeci e vi: dançando entre os caules firmes, novos fios sedosos trouxeram flores amarelas e singulares, estranhas, é verdade, mas de uma sinceridade sem igual.
Entretanto...lá na ponta dos dias, na ponta da plantação, na ponta da pétala amarela, vi crescer aquele mato injusto que já chegou tomando o espaço todo sem pedir licença...
Morrendo novamente, os fios sedosos voltaram a se enlaçar sobre si mesmos, as flores se fecharam silenciosas e a semente, esturricada, depois de tanto amor...
se quebrou.

----------------------
Só queria dizer que não é justo sentir tanto e tão profundo algo que só existe na minha imaginação - muito provável. Eu não queria ter um contrato eternamente renovado com algo que só me traz uma imensa dor quando me frustro. Ao mesmo tempo, eu queria ter coragem de arrancar de vez toda a ligação que existe no meu mundo com essa ideia tão... tão sem nome... mas eu não consigo arrancar algo tão honesto que existe dentro de mim... é como se eu também pudesse morrer um pouco mais e mais forte, sem chances de recuperar o que foi perdido de mim. Eu não entendo a imensidão desse amor e por que ele me fere tanto se o que eu mais quero é parar de sofrer.

8.7.13

Não dá para usar palavras...

Falando de algo que não sei identificar, mas que existe: quando o que você faz é só dar e ficar impaciente porque quer continuar dando este algo e não tem ninguém para recebê-lo... e daí você começa a estranhar que não está cansada e que está se sentindo em dívida com um tanto de pessoas... acredite: é aí que você passa a perceber que está tudo certo e é aí que mora um vazio de pensamentos que não é ruim, mas uma sensação de plenitude. Acho que é Amor.

4.7.13

Do Teatro... e daquela sensação de que algo perdurará

Havia escrito um texto enorme, que era até que bastante sincero e carregado de sentimentalismo, mas apaguei. Apaguei, porque... algumas coisas da vida, a gente tenta e tenta explicar, mas as palavras certas e mais fieis não existem ou demoram para ser esculpidas...
Sucedeu que eu imaginava que teria algo especial na minha vida, mas eu não achava que eu podia ter tanto.
O Teatro me trouxe tesouros inestimáveis...
(e aqui deixo apenas um retalho, dos mais honestos, escancarados, enfim:)
...Na forma de amigos, que são pra vida, pra pós vida e pro infinito. Porque não há coisa mais bonita quando nos encontramos com pessoas e lidamos com elas porque... não sabemos por quê... elas não são meios para chegar a lugar nenhum, elas existem para vivenciarmos um pouco mais de amor no mundo. Amor   na forma de cuidado e de atenção, Amor na forma de cura para um coração machucado e sozinho, Amor na forma de saudade que não sara, Amor na forma de respeito, Amor. Porque ali entregamos a nós mesmos e nós não temos outro tesouro que não este para oferecer...
Além dessas jóias, eu ganhei mais um tanto que me fez crescer: autoconhecimento, segurança, entre tantas outras coisas... uma lista considerável  e sobre a qual poderia falar muito, quase que eternamente.

Mas o que interessa agora é deixar guardado aqui, também, esses pedaços de tempo:

Para assistir à Parte I – Espaço Sucesso (jogo de improviso)
Para assistir à Parte II – Apresentação de Cenas e Monólogos de Shakespeare
Para assistir à Parte III – Homenagem Sucesso (Para Elisa)

E algumas fotos que foram cedidas pela colega Danielle Feltrin:

Foto linda, cena da Dani, da Fer e do Gabriel

Congelados numa foto, adorei esta!

Homenagem Sucesso, rsrsrrs... e a querida Elisa recebendo o monte de amor que a gente tinha pra lhe dar (sem reclamar, rssrsr)

Cena do Gui e do Jonathan

Outra foto dos congelados < 3


E a foto do grupo! < 3

Cena da Evelyn e da Lucia

Eu, incumbida de passar o recado pra Elisa... "Me explico?" eheheheh...

Na plataforma, esperando o trem chegar

Monstrinho Canibal querendo oferecer Elisa como Sacrifício, ahahahahh...

Nascem os monstrinhos!

Cena da Paty e da Sheyla

"Agora acabou!"

Todos no palco, em aquecimento

Num dos ensaios gerais - o último - da Homenagem Sucesso (e ideias para o Espaço Sucesso ficar maneiro!)

...e a Elisa achando que a gente tava ensaiando as cenas, ahahahha... < 3 

27.6.13

Calada, a menina não cabe
na cela.
Respira.
Cresce em membros tortos,
coluna cravada
e pesos encimando
contra a trave, contra a tela, contra aquela parede.
Chora...
primeiras palavras engasgam, entopem, enganam...
ela...
mas...
sem nome,
em fúria que a move,
vaza entre os trechos vazios...
convidativos...
É ninguém.

Respira...

...é só mais alguém.

(que se cala)

Menina, solta a fera,
ambiciona o que é direito!
Morde e engole o mundo...
cabe no vazio da tua barriga.

8.6.13

Chega
pesado 
ruídos metais guerra gritos
OOOOOO
assobio
pneus asfalto a noite
silêncio.
...
Leva a vida
resto
cacos tralhas
essência...
presença não.
...
Vai sendo o que deixam
pela cidade
numa fossa
sem fim...

[O que tem poesia agora? Exercício: improvável / Explorando fluxo, repertório, pontuação]

6.6.13

Cortando o vento as têmporas
bailando
penso olhos fechados
suspiro
paro a vida em quadros

disseco entranhas

toques

beijos

laços

nós.

E...
é.

[...experimentação, num fluido não sei de onde... é o que respiro agora. Durou de 21h31 a 21h33.]